Por Christina Mattos/ Foto: Sammla Castilho Falcoski
Uma intervenção com dança inspirada no Carimbó e no Lundu, danças tradicionais do Pará, foi estudada como estratégia para estimular a fala e a comunicação de pessoas com doença de Parkinson. Na pesquisa, a prática foi organizada em uma sequência de atividades com movimentos rítmicos, musicalidade e contação de histórias sobre temas regionais, como lendas e elementos da natureza.
O estudo foi apresentado pela pesquisadora brasileira Raquel Arigony, doutoranda em Ciências do Movimento Humano pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na 37ª Conferência Global da Alzheimer’s Disease International (ADI), realizada em Lyon, na França, de 14 a 16 de abril .
Orientado pela professora Dra. Aline Haas, o trabalho integra uma colaboração interdisciplinar entre pesquisadores do Brasil e do exterior. Entre os parceiros estão Adolfo M. García, responsável pelo uso de ferramentas inovadoras de análise de fala, como o TELL; Constantina Theofanopoulou, do Jameel Arts & Health Lab da New York University; além de pesquisadores da região Norte do Brasil, como a Dra. Elren Passos-Monteiro e o Dr. Carlos C. E. Guzzo Júnior.
Embora o foco do estudo seja a doença de Parkinson, os resultados dialogam com temas importantes para o campo das demências, como comunicação, autonomia, interação social, redução do isolamento, saúde cerebral e uso de estratégias não farmacológicas culturalmente adaptadas.
O artigo preliminar (preprint) do estudo pode ser acessado aqui. A versão final deve ser publicada em breve. A seguir, a pesquisadora explica como foi conduzida a pesquisa, comenta os resultados observados e relata como foi participar da conferência global.
O que o estudo investigou?
Raquel Arigony – Nosso trabalho foi movido pela busca de estratégias para promover melhor a saúde cerebral de pessoas com Parkinson e pela curiosidade científica de entender os efeitos das danças brasileiras amazônicas culturalmente adaptadas na fala e na comunicação dessas pessoas.
Como foi realizado o estudo na prática?
Raquel Arigony – As danças utilizadas foram o Lundu e o Carimbó, danças típicas da região do Pará, com raízes indígena, africana e europeia. Elas incluem movimentos rítmicos e energéticos, que envolvem o corpo todo e a coletividade. Além da musicalidade, o uso de contação de histórias sobre temáticas regionais, como lendas e elementos da natureza, proporcionam estímulos à memória e à sensorialidade. Assim, por meio desse protocolo, vimos como o Lundu e o Carimbó estimulam, de forma lúdica, o corpo, as emoções, a cognição e a socialização.
O que chamou atenção nos resultados?
Raquel Arigony – Uma coisa curiosa no nosso estudo é que ele foi realizado ao mesmo tempo no Norte e no Sul do Brasil. No Sul, houve um grupo controle, com comparação com a caminhada nórdica. No Norte, as pessoas dançaram, e no Sul também houve participantes que dançaram. As pessoas do Norte já conheciam as danças. As pessoas do Sul, não. Como resultado, vimos que a dança, de modo geral, no Sul e no Norte, melhorou em relação à caminhada nórdica, que foi a outra atividade usada na comparação. Mas as pessoas do Norte tiveram um resultado mais relevante na melhora da fala do que as pessoas do Sul. Estamos atribuindo isso ao fato de elas já conhecerem a dança, terem afinidade cultural e talvez se envolverem mais energeticamente com o corpo. Ainda não podemos afirmar isso com certeza, mas é como estamos entendendo esse resultado.
Por que fala e comunicação são aspectos importantes nesse contexto?
Raquel Arigony – A fala e a comunicação são aspectos centrais da autonomia e da interação social. Além dos efeitos cerebrais ligados a esses resultados, a melhora da comunicação também pode diminuir o isolamento social, fator diretamente ligado à prevenção e à promoção da saúde no campo das demências.
Como esse trabalho importa para o campo das demências?
Raquel Arigony – Ainda temos muito a descobrir enquanto ciência, mas já temos evidências suficientes para colocar, cada vez mais, a arte em ação como uma forma de impactar positivamente a saúde. As artes criativas, em especial as que incluem movimento, como a dança, são atividades expressivas, de fácil engajamento e baixo custo. Elas promovem bem-estar, fortalecem vínculos sociais e trazem diversos benefícios à saúde mental e física. Assim, a arte atua sobre diversos fatores modificáveis da redução de risco de demência, sendo uma importante aliada como estratégia não farmacológica para reduzir riscos, ou mesmo viver melhor com demência.
Como surgiu a oportunidade de participar da Conferência Global da ADI?
Raquel Arigony – Neste primeiro semestre, estou fazendo um doutorado sanduíche, com bolsa Capes, na Universidade de Limerick, na Irlanda. A proximidade com Lyon e o incentivo da minha orientadora na UFRGS, Dra. Aline Haas, me levaram a participar da 37ª Conferência Global da Alzheimer’s Disease International. Foi uma grande oportunidade de apresentar um pôster sobre o estudo das danças amazônicas e de estar em contato com pesquisadores, profissionais da saúde, líderes políticos e comunitários, pessoas que vivem com demência e cuidadores.
O que essa experiência trouxe para você como pesquisadora?
A conferência me permitiu dialogar com pessoas envolvidas na área, ouvir o que pessoas que vivem com demência querem e precisam, conversar com lideranças que podem promover ações efetivas e aprender com diferentes experiências. Foi um espaço de troca, crescimento pessoal e profissional. Também ajudou a fortalecer conexões, criar comunidade, ampliar redes e integrar o Brasil ao diálogo internacional sobre saúde e ciência. Saio dessa vivência ainda mais motivada a produzir conhecimento cientificamente relevante, socialmente significativo e aplicável à nossa realidade.
