Pequenas mudanças, grandes impactos: criando hábitos positivos na jornada do cuidado

Federação Brasileira das Associações de Alzheimer

Por Ticyana Novais

Cuidar de alguém com Alzheimer é, muitas vezes, aprender a viver entre o amor e o cansaço. É estar presente em uma rotina exigente, que mobiliza o corpo, a mente e as emoções. E, no meio disso tudo, é comum que o cuidador vá, pouco a pouco, se esquecendo de si — não por escolha, mas pela falta de espaço.

Ainda assim, há uma verdade essencial que precisa ser lembrada: cuidar bem exige, também, ser cuidado.

Quando falamos em hábitos saudáveis nesse contexto, não estamos falando de grandes mudanças ou de uma rotina ideal. Estamos falando de constância. A psicologia do comportamento mostra que o cérebro aprende pela repetição: não é o tamanho da ação que transforma, mas a frequência com que ela acontece. Pequenos gestos, quando sustentados ao longo do tempo, tornam-se automáticos e passam a exigir menos esforço — algo fundamental em uma rotina já sobrecarregada.

É por isso que os chamados “micro-hábitos” são tão importantes. Eles cabem na vida real. Um copo de água ao acordar, três respirações profundas antes de iniciar uma tarefa, alongar o corpo por cinco minutos, tomar um café com atenção plena, ouvir uma música que acalma, fazer uma pausa breve enquanto a pessoa assistida descansa. São ações simples, possíveis — e, quando repetidas, profundamente reguladoras.

Esses pequenos momentos não mudam a realidade do cuidado, mas mudam a forma como você atravessa essa realidade.

Da mesma forma, desenvolver o hábito de pedir ajuda, dividir responsabilidades e estabelecer limites é parte fundamental do cuidado sustentável. Dizer “não” sem culpa não é egoísmo — é proteção. Ninguém sustenta o cuidado sozinho sem pagar um preço alto.

E é importante lembrar: nem todos os dias serão bons. Haverá cansaço, irritação, tristeza. Validar essas emoções não diminui o amor — apenas reconhece a humanidade de quem cuida.

Talvez o autocuidado, nesse contexto, não seja sobre fazer mais, mas sobre fazer de forma constante o que é possível. E, pouco a pouco, são essas pequenas escolhas, repetidas com gentileza, que tornam o caminho mais leve e mais sustentável.

Para começar hoje – Comece com o possível:

  • Beba um copo de água ao acordar

  • Faça 3 respirações profundas antes de iniciar uma tarefa

  • Reserve 5 minutos de pausa consciente (sem celular)

  • Alongue o corpo ao levantar ou antes de dormir

  • Tome um café ou chá com atenção plena

  • Ouça uma música que te acalme

  • Peça ajuda para uma pequena tarefa da semana

  • Diga “não” a algo que ultrapasse seu limite

  • Anote, no fim do dia, uma coisa que deu certo

Constância importa mais que intensidade. Um pouco, todos os dias, já é cuidado.

Referências

Lally, P. et al. (2010). How are habits formed: Modelling habit formation in the real world. European Journal of Social Psychology.

Schulz, R. & Sherwood, P. (2008). Physical and mental health effects of family caregiving. American Journal of Nursing.

Ticyana Novais

Conselheira da Febraz, integrante da Comissão Científica. Vice-presidente do Instituto Alzheimer Brasil (Curitiba- PR), Neuropsicóloga, Especialista em Gerontologia pela FIES-PR, Mestre em Biologia Celular e Molecular / Fisiologia pela UFPR.