Pesquisadoras brasileiras lideram pesquisa e apontam potencial de prevenção em quase 60% dos casos de Alzheimer

Federação Brasileira das Associações de Alzheimer
Por Christina Mattos

Um novo estudo liderado por pesquisadoras brasileiras traz uma conclusão inédita: 59,5% dos casos de demência no Brasil poderiam potencialmente ser evitados ou adiados com o controle de fatores de risco conhecidos. A pesquisa foi publicada na The Lancet Regional Health – Americas, revista científica internacional de grande prestígio, reconhecida por reunir estudos de impacto sobre saúde pública em todo o mundo. Para a análise, foram utilizados dados do Estudo Longitudinal de Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), que acompanha quase 10 mil pessoas com 50 anos ou mais em todas as regiões do país.

Os pesquisadores calcularam a fração de risco atribuível a 14 fatores modificáveis, já estabelecidos pela Comissão Lancet sobre Prevenção, Intervenção e Cuidado em Demência, em sua atualização mais recente, de 2024. A comissão é formada por especialistas internacionais reunidos pela própria revista The Lancet, que periodicamente revisam as melhores evidências científicas disponíveis e publicam relatórios que se tornam referência global.

Entre os fatores identificados estão a baixa escolaridade na juventude; hipertensão, obesidade, perda auditiva, colesterol alto, depressão, traumatismo craniano, sedentarismo, diabetes, tabagismo e consumo excessivo de álcool na meia-idade; além de isolamento social, poluição do ar e perda de visão não tratada na velhice.

No Brasil, os fatores mais fortemente associados ao risco de demência foram a baixa escolaridade, responsável por 9,5% dos casos; a perda de visão não tratada, associada a 9,2%; e a depressão na meia-idade, vinculada a 6,3%. Na prática, isso significa que desigualdades no acesso à educação, falhas no cuidado oftalmológico e a insuficiente atenção à saúde mental na fase adulta respondem, juntas, por uma parte significativa do risco de demência no país.

Um dos dados mais preocupantes do estudo é que 52% das pessoas com mais de 50 anos relataram ter algum déficit visual não tratado. Isso revela que mais da metade dos participantes da pesquisa nunca recebeu atenção adequada para problemas de visão, mesmo diante de condições que, muitas vezes, são preveníveis ou tratáveis. A ausência de políticas públicas consistentes nessa área ajuda a explicar por que o déficit visual aparece como um dos principais fatores de risco no contexto brasileiro.

“A possibilidade de prevenção no país é ainda maior do que a média mundial, que atribui 45% dos casos a estes fatores. Aqui, é quase 60%, e se atuássemos de forma efetiva sobre eles poderíamos reduzir muitos casos nas futuras gerações. Isso mostra o impacto que políticas públicas que invistam em educação, saúde visual e atenção à saúde mental poderiam ter na prevenção”, afirma a psiquiatra e epidemiologista Cleusa Ferri, coordenadora do estudo.

Embora cada fator de risco tenha peso diferente conforme a etapa da vida, os autores do artigo destacam que a prevenção deve ser entendida como um processo contínuo. Investir na educação desde a juventude amplia a chamada reserva cognitiva, que protege o cérebro ao longo do tempo. Na meia-idade, o cuidado com doenças cardiovasculares, a atenção à saúde mental e o incentivo a hábitos saudáveis desempenham papel decisivo. Já na velhice, prevenir e tratar a perda de visão, além de reduzir a exposição à poluição do ar, pode fazer grande diferença na preservação da autonomia e da qualidade de vida.

“Sobre a depressão, trabalhamos com duas vias prováveis. Uma delas é que, quando não tratada, a doença leva ao isolamento social e reduz oportunidades de estimulação cognitiva. Também é provável que haja um mecanismo biológico direto, com desbalanço de neurotransmissores que, ao longo do tempo, possa contribuir para o desenvolvimento de demência”, explica Claudia Suemoto, médica geriatra e professora da Faculdade de Medicina da USP que liderou a execução da pesquisa.

As conclusões do estudo reforçam que políticas públicas que ampliem o acesso à educação, garantam saúde visual e promovam atenção à saúde mental devem integrar as estratégias já existentes de enfrentamento das doenças crônicas. Como defensora e articuladora dessas políticas, a Febraz  atua para que o potencial de prevenção apontado pela ciência se traduza em melhorias concretas na saúde da população brasileira.

 

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