Equipe do Programa Maior Cuidado, de Belo Horizonte. Foto: Divulgação/GPPSI.
Por Christina Mattos
Quando uma pessoa idosa passa a depender de ajuda para atividades do dia a dia, continuar vivendo em casa com segurança, vínculos e a maior autonomia possível exige uma rede de cuidado que não deixe toda a responsabilidade nas mãos da família. É a partir dessa lógica que funciona, em Belo Horizonte, o Programa Maior Cuidado.
Criado em 2011 pela prefeitura da capital mineira, o programa acompanha, em média, 725 pessoas idosas por mês e realiza aproximadamente 6.400 atendimentos domiciliares mensais. A iniciativa é desenvolvida de forma integrada pela Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos e pela Secretaria Municipal de Saúde e está presente nos territórios dos 37 Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), distribuídos pelas nove regionais da cidade, em articulação com os Centros de Saúde.
A atuação dos cuidadores sociais é viabilizada por meio de parceria da Prefeitura com o Grupo de Desenvolvimento Comunitário (GDECOM), organização da sociedade civil responsável pela execução dessa frente do programa. Embora não seja voltado exclusivamente às demências, o Maior Cuidado também atende pessoas que vivem com Alzheimer e outras condições que comprometem sua autonomia.
Ao longo de 15 anos, a experiência acumulou aprendizados sobre cuidado no domicílio, articulação entre Assistência Social e Saúde e compartilhamento de responsabilidades entre poder público, famílias e rede de apoio. Para entender como esse modelo funciona na prática, seus resultados e os desafios que ainda enfrenta, o Notícias Febraz entrevistou Ana Cristina Silva, gerente de Programas e Projetos Socioassistenciais e Intersetoriais da Prefeitura de Belo Horizonte.
O que uma família precisa saber antes de procurar o atendimento pelo Programa Maior Cuidado?
Ana Cristina Silva — O Programa Maior Cuidado não é um serviço de cuidador particular nem uma substituição integral da responsabilidade da família. Ele é uma oferta pública de proteção social, construída conjuntamente pela Assistência Social e pela Saúde, para famílias que vivenciam situações de vulnerabilidade e que têm uma pessoa idosa com necessidade de apoio para as atividades da vida cotidiana.
A família pode procurar o CRAS ou o Centro de Saúde de referência do território. A entrada no Programa depende de uma avaliação realizada pelas duas políticas. Pela Assistência Social, são consideradas as condições da família, a rede de apoio, as situações de vulnerabilidade e a organização do cuidado. Pela Saúde, são avaliados as condições clínico-funcionais e o grau de dependência da pessoa idosa.
Entre os critérios estão: ter 60 anos ou mais, apresentar condição de dependência ou semidependência, residir em território atendido pelo Programa, estar vinculada ao Centro de Saúde da área de abrangência e ser acompanhada pelo PAIF. Também são considerados critérios socioeconômicos e a pontuação resultante das avaliações realizadas pelas equipes. Atualmente, a normativa municipal estabelece pontuação mínima de 60 pontos, além dos parâmetros de renda previstos para acesso.
Existe uma demanda que em determinados períodos supera a capacidade imediata de atendimento. Isso varia entre os territórios. Em junho de 2026, por exemplo, o Programa registrava 143 pessoas em demanda reprimida.
Depois que a pessoa é incluída, como é definido o atendimento que ela vai receber?
Ana Cristina Silva — A quantidade de dias e horas não é definida apenas pelo diagnóstico ou pela idade. A definição se dá a partir de uma análise das necessidades da pessoa idosa, de seu grau de dependência, das condições familiares, da existência ou não de uma rede de apoio e daquilo que as equipes identificam como necessário naquele momento.
Em geral, os atendimentos podem ter duração de duas ou quatro horas, ocorrer de duas a cinco vezes por semana, podendo chegar, conforme a avaliação, a até 20 horas semanais para uma mesma pessoa idosa. Essa organização não é fixa para sempre. Ela pode ser revista se a situação da pessoa ou da família mudar.
O cuidador social atua nas atividades da vida cotidiana. Pode apoiar a higiene e o autocuidado, alimentação, mobilidade, organização da rotina, convivência, estímulo à autonomia, acompanhamento dentro do território quando previsto e, sobretudo, observar como aquela pessoa está vivendo e como a família está conseguindo organizar o cuidado.
Na prática, o cuidador social apoia a pessoa idosa nas atividades do cotidiano, buscando preservar sua autonomia, segurança, vínculos e participação na vida familiar e comunitária. Pode auxiliar no banho, higiene, troca de roupas, alimentação, mobilidade e organização da rotina.
No campo da Assistência Social, também contribui para fortalecer a autonomia da pessoa idosa nas atividades do dia a dia, estimular vínculos familiares e comunitários, atividades cognitivas, resgate da história de vida do idoso, apoiar a participação nas decisões sobre sua própria rotina e favorecer o acesso a serviços, atividades e oportunidades no território. Durante os atendimentos, observa ainda situações de isolamento, sobrecarga familiar, fragilização de vínculos, mudanças no comportamento ou nas condições do domicílio e comunica essas informações à supervisão e às equipes do CRAS e da Saúde, para avaliação e definição conjunta dos encaminhamentos necessários.
Ao mesmo tempo, existem limites. O cuidador social não substitui profissionais de Saúde, não realiza procedimentos técnicos ou invasivos próprios da enfermagem ou de outras categorias profissionais e não deve assumir atividades que o transformem em trabalhador doméstico da família. Também não é sua função substituir integralmente o cuidador familiar. O trabalho é de apoio, proteção, estímulo à autonomia e compartilhamento do cuidado.
Em resumo, sua atuação está diretamente relacionada ao cuidado da pessoa idosa, à autonomia, à convivência e à proteção, sem substituir profissionais de saúde ou assumir funções de empregado doméstico.
Como a pessoa idosa e sua família participam da construção do plano de cuidado?
Ana Cristina Silva — Esse é um ponto fundamental. O cuidado não pode ser organizado apenas a partir daquilo que o profissional considera necessário. A pessoa idosa precisa ser reconhecida como sujeito da própria vida, precisa ser escutada.
Por isso, quando o atendimento começa, há um momento de acolhida no domicílio, com participação da família, da pessoa idosa, da equipe do PAIF, da supervisão e do cuidador. Nesse processo são discutidos não apenas os problemas, mas também como aquela pessoa vive, do que gosta, quais são seus hábitos, sua rotina, seus vínculos, o que ainda consegue fazer sozinha e aquilo que deseja preservar.
Uma pessoa que sempre gostou de cuidar das plantas, por exemplo, não deve ser reduzida a alguém que precisa de ajuda para tomar banho ou se alimentar. O cuidado pode também buscar formas para que ela continue participando daquilo que dá sentido à sua vida, respeitando suas possibilidades.
A família também participa porque o Programa busca reorganizar o cuidado, e não retirar a família desse processo. Muitas vezes precisamos conversar sobre quem cuida, quem poderia compartilhar mais essa responsabilidade, onde está a sobrecarga e que outros apoios podem ser acionados.
Há dados sobre quantas pessoas atendidas vivem com Alzheimer ou outras demências? Que formação e orientações os cuidadores recebem para lidar com a condição?
Ana Cristina Silva — Atualmente, o Programa possui informações sobre as condições de saúde das pessoas acompanhadas nos registros das equipes, mas o diagnóstico de Alzheimer e outras demências ainda não está consolidado como um indicador específico do monitoramento municipal do PMC. Esse é um aspecto que pode ser aperfeiçoado, porque sabemos que as demências estão muito presentes no cotidiano do cuidado de pessoas idosas dependentes.
A formação dos cuidadores, no entanto, considera essas situações. Os profissionais recebem orientações sobre processo de envelhecimento, alterações cognitivas, comunicação com a pessoa idosa, mudanças de comportamento, prevenção de quedas e outros riscos no domicílio, além de estratégias para preservar a autonomia possível e evitar confrontos desnecessários.
A formação continuada tem sido uma preocupação importante do Programa. Nos últimos anos foram realizadas atividades com diferentes parceiros sobre envelhecimento, cuidado, saúde, terapia ocupacional, cuidados paliativos, situações de urgência e emergência e outras questões que aparecem concretamente nos domicílios.
Também orientamos muito os cuidadores sobre um ponto: eles não precisam resolver sozinhos aquilo que observam. Mudanças importantes de comportamento, confusão, recusa alimentar, quedas ou alterações funcionais precisam chegar às equipes responsáveis para avaliação.
Por acompanhar o dia a dia, o cuidador pode perceber mudanças que nem sempre aparecem em uma consulta. Como essas informações são tratadas?
Ana Cristina Silva — Essas observações são compartilhadas inicialmente com a supervisão do Programa e, conforme a situação, com o PAIF e com a equipe do Centro de Saúde. Além disso, cada território possui o GT Local, uma reunião periódica que reúne Assistência Social, Saúde e Programa Maior Cuidado para discutir o acompanhamento das pessoas atendidas.
Nesse espaço, o cuidador traz aquilo que observou; a supervisão contribui com a análise do acompanhamento; o PAIF analisa a dinâmica familiar e as vulnerabilidades sociais; e a Saúde avalia as condições clínico-funcionais. A partir desses diferentes olhares, são definidas as providências.
Um exemplo possível é o cuidador perceber que uma pessoa idosa que normalmente se alimentava bem começou a recusar refeições, ficar mais sonolenta e apresentar maior dificuldade para caminhar. Essa informação não deve ficar apenas registrada no relatório. Ela pode levar a uma avaliação do Centro de Saúde, enquanto o PAIF verifica se houve alguma mudança na organização familiar, na oferta dos alimentos ou na disponibilidade de quem cuida.
Esse fluxo transforma uma observação do cotidiano em uma ação conjunta de proteção.
Que mudanças o programa produz na vida das pessoas idosas e dos familiares responsáveis pelo cuidado?
Ana Cristina Silva — Os relatos das famílias e das equipes mostram efeitos muito concretos. Para algumas pessoas idosas, o cuidador significa voltar a tomar banho com regularidade, sair do quarto, caminhar dentro de casa, conversar, retomar pequenas atividades ou ter alguém que perceba rapidamente uma mudança em sua condição.
Para as famílias, muitas vezes significa algumas horas em que o cuidador familiar consegue ir a uma consulta, resolver uma questão pessoal, trabalhar ou simplesmente descansar. E isso é muito importante, porque a sobrecarga prolongada também pode produzir adoecimento e conflitos familiares.
O Programa possui um conjunto consistente de indicadores de atendimento. Em 2025, por exemplo, foram acompanhadas 1.041 pessoas idosas ao longo do ano e realizados 76.761 atendimentos. Também monitoramos inserções, desligamentos, demanda reprimida, distribuição dos atendimentos e outros aspectos da execução. Temos várias pesquisas acadêmicas que apontam efeitos positivos do Programa. Um deles é a contribuição para a permanência da pessoa idosa no domicílio. Em 2025, entre as 988 pessoas idosas acompanhadas pelo PMC, apenas 3% tiveram solicitação de acolhimento institucional.
Mas há uma diferença importante entre medir quanto fazemos e medir o que muda na vida das pessoas. Historicamente, o PMC consolidou melhor os indicadores de cobertura e produção. O desafio atual é avançar nos indicadores de resultado.
Precisamos conseguir demonstrar com maior precisão se houve redução da sobrecarga do cuidador familiar, preservação da capacidade funcional, melhora da qualidade de vida, fortalecimento dos vínculos ou redução de situações de negligência e violência. Esse é hoje um campo de desenvolvimento e pesquisa importante para o Programa.
O que é indispensável para que a articulação entre Assistência Social, Saúde e a organização parceira funcione bem?
Ana Cristina Silva — Primeiro, cada ator precisa compreender claramente qual é a sua responsabilidade e qual é a responsabilidade do outro. Intersetorialidade não significa que todos façam tudo.
A Saúde possui um olhar clínico e funcional. O PAIF trabalha com as vulnerabilidades, os vínculos, a organização familiar e o acesso à proteção social. O cuidador está no cotidiano do domicílio e produz informações muito importantes sobre aquilo que acontece entre uma consulta e outra. A supervisão acompanha tecnicamente o trabalho dos cuidadores e ajuda a transformar essas observações em informação qualificada.
Para que isso funcione são necessários espaços permanentes de encontro. Por isso o GT Local mensal é tão importante. É ali que diferentes informações deixam de existir separadamente e passam a orientar uma decisão compartilhada.
Também são indispensáveis registros adequados, fluxos de comunicação, formação conjunta e corresponsabilidade. Quando cada política atende a pessoa separadamente, podemos ter muitos profissionais entrando na mesma casa e, mesmo assim, não ter um cuidado integrado.
Com base na experiência acumulada desde 2011, o que um município precisa garantir para implantar uma iniciativa semelhante?
Ana Cristina Silva — A primeira condição é assumir que cuidado é uma responsabilidade pública. Não é possível criar um programa como o Maior Cuidado entendendo que a família, especialmente as mulheres da família, dará conta de tudo e que o poder público entrará apenas quando houver uma crise.
Um município precisa garantir financiamento continuado, equipe de gestão, supervisão técnica, cuidadores em quantidade compatível com a demanda, formação permanente, integração entre Assistência Social e Saúde, critérios de acesso, instrumentos de acompanhamento e espaços regulares de gestão intersetorial.
Também precisa haver uma rede territorial funcionando. O PMC não existiria da mesma maneira sem CRAS, PAIF, Centros de Saúde e equipes que conhecem as famílias e os territórios.
Um erro que precisa ser evitado é transformar o Programa simplesmente em fornecimento de horas de cuidador. Se isso acontecer, perde-se justamente aquilo que diferencia o PMC: o cuidador é parte de uma estratégia mais ampla de proteção social e de cuidado compartilhado.
Outro erro é responsabilizar exclusivamente o cuidador pelos problemas encontrados no domicílio. Ele observa, apoia e informa, mas as respostas precisam ser construídas pelo conjunto da rede.
Hoje os principais desafios são ampliar a capacidade frente à demanda, reduzir impactos da rotatividade e dos afastamentos de profissionais, qualificar cada vez mais os registros, aperfeiçoar os critérios de distribuição da carga horária, fortalecer a participação das famílias, produzir indicadores de resultados e sustentar uma verdadeira cogestão entre Assistência Social e Saúde.
Depois de 15 anos de experiência, talvez a principal aprendizagem do Programa seja esta: cuidar de uma pessoa idosa dependente não é apenas executar tarefas. É preservar autonomia, relações, dignidade e participação na vida. E, quando uma família não consegue fazer isso sozinha, essa necessidade também precisa ser reconhecida como responsabilidade do Estado.
Programa Maior Cuidado – Belo Horizonte (MG)
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