Por Ciro Férrer
“À medida que as capacidades sensoriais e cognitivas se transformam ao longo do processo de envelhecimento, o espaço atua como mediador da autonomia, orientação e qualidade de vida” (Albuquerque, 2026).
O envelhecimento da população brasileira impõe novos desafios tanto para a arquitetura dos ambientes construídos quanto para o cuidado integrado. Com o aumento da longevidade e da prevalência das demências, torna-se necessário repensar os ambientes onde pessoas com demência vivem, convivem e recebem cuidados. Grande parte do cotidiano acontece nesses espaços, que podem facilitar ou dificultar ações simples, orientar ou desorientar, acolher ou gerar estresse.
O ambiente construído influencia diretamente a experiência cotidiana da pessoa com demência. Ruídos excessivos, iluminação inadequada, reflexos, baixo contraste, excesso de estímulos, percursos confusos, barreiras físicas e ausência de referências familiares podem aumentar a insegurança, a dependência e a dificuldade para realizar atividades. Em contrapartida, ambientes previsíveis, compreensíveis, familiares e bem orientados podem favorecer autonomia, participação e segurança.
Essa abordagem já encontra aplicações concretas em residências coletivas na Holanda, no Reino Unido e na Bélgica, onde portas padronizadas vêm sendo substituídas por modelos que reproduzem referências das antigas casas dos moradores. A avaliação conduzida pelo Trimbos-instituut identificou maior tranquilidade e facilidade para localizar o próprio quarto. Para uma pessoa com Alzheimer, uma porta familiar pode funcionar como uma referência afetiva e espacial, transpondo a função tangível da arquitetura residencial.
Essa relação também alcança os cuidadores familiares. Uma casa que exige vigilância constante, apresenta riscos ou dificulta tarefas rotineiras pode ampliar a sobrecarga física e emocional do cuidado. Um ambiente responsivo à demência pode reduzir obstáculos e situações de conflito, facilitando a supervisão e permitindo que o cuidador dedique mais tempo à convivência e à relação com a pessoa cuidada.
Nesse contexto, a NeuroArquitetura busca trazer maior rigor científico à pesquisa sobre ambiente e comportamento. Ao integrar conhecimentos das neurociências e ferramentas de medição biométrica, a Neuroarquitetura busca compreender como os ambientes arquitetônicos influenciam o cérebro, o corpo e o comportamento.
As estratégias de um ambiente responsivo à demência descritas no World Alzheimer Report 2020: Design, Dignity, Dementia, publicado pela Alzheimer’s Disease International, podem ser descritas: reduzir riscos de forma discreta; eliminar degraus e obstáculos; favorecer percursos simples e contínuos; garantir iluminação uniforme e adequada; reduzir ofuscamento e reflexos; utilizar contrastes visuais funcionais; controlar ruídos; evitar excesso de informações visuais; criar referências espaciais claras; utilizar cores e objetos familiares.
Ademais, tornar portas e ambientes facilmente identificáveis; preservar pontos de vista para áreas externas; oferecer contato com natureza e luz natural; disponibilizar espaços de descanso e privacidade; criar áreas para convivência em pequenos grupos; estimular atividades significativas; apoiar a realização das atividades de vida diária; oferecer acesso seguro a jardins e espaços externos; favorecer a circulação espontânea; e manter conexão com a comunidade; são outras estratégias citadas no relatório da Alzheimer’s Disease International.
Vale ressaltar que tais estratégias não devem resultar em ambientes excessivamente protegidos ou institucionalizados. O objetivo é equilibrar segurança e liberdade, apoio e autonomia, previsibilidade e estímulo, respeitando a história, as preferências e as capacidades de cada pessoa.
Portanto, a arquitetura passa a integrar a própria experiência do cuidado, deixando de ser apenas o espaço onde ele acontece. Uma casa responsiva à demência pode oferecer segurança sem restringir, favorecer a orientação sem infantilizar e reduzir a sobrecarga do cuidador, preservando a autonomia, a identidade e a possibilidade de a pessoa continuar vivendo sua própria vida.
Referências
ALBUQUERQUE, C. F. H. Arquitetura Hospitalar Sensível à Demência. Revista IPH – Instituto de Pesquisas Hospitalares, v. 20, n. 1, p. 67–93, 2019.
CRUISE, C.; LASHEWICZ, B. M. Dementia and dignity of identity: A qualitative evidence synthesis. Dementia, v. 21, n. 4, p. 1233–1249, 2022.
FLEMING, R.; ZEISEL, J.; BENNETT, K. World Alzheimer Report 2020: Design, dignity, dementia: dementia-related design and the built environment. Volume 1. London: Alzheimer’s Disease International, 2020. Disponível em: https://www.alzint.org/u/WorldAlzheimerReport2020Vol1.pdf. Acesso em: 21 ago. 2026.
FLEMING, R.; ZEISEL, J.; BENNETT, K. World Alzheimer Report 2020: Design, dignity, dementia: dementia-related design and the built environment. Volume 2: Case Studies. London: Alzheimer’s Disease International, 2020. Disponível em: https://www.alzint.org/u/WorldAlzheimerReport2020Vol2.pdf. Acesso em: 21 ago. 2026.
*Imagem ilustrativa produzida por IA mediante ao comando do autor.
Ciro Férrer Herbster Albuquerque
Arquiteto e Urbanista. Mestre pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBBG). Pós-Graduado em Neurociência | Geriatria e Gerontologia | Neuroarquitetura. Membro do Conselho Municipal do Direito da Pessoa Idosa (CMDPI) e Coordenador da Comissão de Fiscalização, Normatização e Inscrição, Fortaleza, Ceará. Membro do Centro Educacional da Academy Of Neuroscience for Architecture (ANFA). Docente na Pós-Graduação de Gerontologia da Universidade de Fortaleza (UNIFOR).
