Por Ticyana Novais
Quem acompanha de perto alguém com Alzheimer provavelmente já se fez uma pergunta difícil: “E se um dia acontecer comigo?”
Recentemente assisti a uma palestra de uma mulher que cuidou durante anos do pai com Alzheimer. Ele havia sido professor universitário, bilíngue, gostava de xadrez, cartas e de escrever artigos. Era seu herói e seu guia. Ao vê-lo perder progressivamente tantas capacidades, ela percebeu que poderia reagir ao medo de duas maneiras: negar — “isso nunca acontecerá comigo” — ou acreditar que, fazendo tudo certo, conseguiria impedir a doença.
Ela escolheu uma terceira possibilidade: “Vou fazer o possível para prevenir. Mas também vou me preparar, caso um dia aconteça comigo.”
Achei essa ideia extremamente interessante. Não significa esperar pela doença. Sabemos que atividade física, alimentação adequada, controle dos fatores cardiovasculares, vida social e atividade cognitiva podem contribuir para reduzir o risco de demência. Mas reduzir o risco não significa eliminar completamente a possibilidade. Então, além de cuidar do cérebro, por que não construir recursos para viver melhor caso nossas capacidades um dia se modifiquem?
Ensine suas mãos
Ao observar o pai, essa mulher percebeu que atividades intelectuais que haviam feito parte da vida dele tornaram-se cada vez mais difíceis. E começou a pensar: “Se um dia eu tiver Alzheimer, o que meus cuidadores poderão fazer comigo?”
Passou então a desenhar, aprender origami e tricô. Não precisava ser boa. Queria apenas que suas mãos aprendessem. Essa ideia tem fundamento interessante: habilidades adquiridas pela repetição — a chamada memória procedural, o nosso “saber fazer” — podem permanecer relativamente preservadas por mais tempo em algumas pessoas com Alzheimer. Por isso, vale perguntar: o que suas mãos sabem fazer?
Cozinhar, pintar, cuidar de plantas, costurar, tocar um instrumento, dançar, fazer artesanato?
Não precisamos fazer isso pensando em uma talvez futura doença. Devemos fazer porque torna nossa vida melhor agora. Mas esses interesses também podem se tornar caminhos para o prazer e a identidade no futuro.
Construa força
A segunda decisão dela foi investir no corpo: força muscular, equilíbrio e mobilidade. Costumamos associar Alzheimer apenas à memória, mas a progressão da doença também pode comprometer a independência funcional. Chegar à velhice com maior reserva física pode significar permanecer autônomo por mais tempo — e também diminuir a sobrecarga de quem cuida.
Podemos pensar no exercício como uma espécie de poupança funcional para o envelhecimento.
E cuide daquilo que existe além da memória
A terceira decisão foi a que mais me tocou: ela resolveu tentar se tornar uma pessoa melhor. Seu pai havia perdido conhecimentos, habilidades e muitas características ao longo da doença. Mas continuava amoroso. Demonstrava carinho pela esposa, pelos filhos, netos e cuidadores.
Isso não significa que todas as pessoas com Alzheimer permanecerão tranquilas ou afetuosas — alterações comportamentais fazem parte de muitos quadros. Mas nos lembra de algo fundamental: uma pessoa é muito mais do que sua memória.
Talvez seu pai já não saiba seu nome, mas se sinta seguro quando você chega. Talvez sua mãe não consiga contar determinada história, mas ainda cante uma música da juventude. Talvez alguém não consiga explicar o que está fazendo, mas suas mãos ainda reconheçam um movimento aprendido há décadas. Quando a memória falha, ainda podem existir afeto, familiaridade, prazer, segurança e conexão.
Prepare-se vivendo
Talvez seja essa a mensagem mais bonita daquela palestra. Não precisamos viver esperando pelo Alzheimer. Podemos nos preparar vivendo melhor agora. Ter hobbies. Aprender coisas com as mãos. Fortalecer o corpo. Cultivar amizades. Criar vínculos. Ouvir música. Dançar. Cozinhar. Ter interesses e construir memórias afetivas. E permitir que nossa família saiba quem somos, o que nos acalma, o que nos dá prazer e como gostaríamos de ser cuidados.
Porque talvez um dia algumas palavras desapareçam. Algumas lembranças também. Mas podemos construir hoje muitos caminhos para que, se isso acontecer, aqueles que amamos ainda saibam como chegar até nós
Ticyana Novais
Conselheira da Febraz, integrante da Comissão Científica. Vice-presidente do Instituto Alzheimer Brasil (Curitiba- PR), Neuropsicóloga, Especialista em Gerontologia pela FIES-PR, Mestre em Biologia Celular e Molecular / Fisiologia pela UFPR.
