Relatório mundial mostra nova fase das pesquisas em demência

Federação Brasileira das Associações de Alzheimer

Peter (à esquerda) e Bill Yeates, irmãos gêmeos, observam exames de imagem do cérebro de Bill, participante de um ensaio clínico na Austrália. Foto: Belinda Cooper/ADI.

 
Por Christina Mattos

O Relatório Mundial de Alzheimer 2026, divulgado nesta semana pela Alzheimer’s Disease International (ADI), dedica sua nova edição aos ensaios clínicos em demência. O documento mostra um campo de pesquisa em expansão, mas também aponta dificuldades para recrutar participantes, desigualdades entre países e a necessidade de incluir diferentes populações nos estudos.

Só na pesquisa de medicamentos para Alzheimer, 158 medicamentos estão sendo avaliados em 192 ensaios clínicos. Para que esses estudos sejam realizados, são necessários cerca de 55 mil participantes. O número de pessoas que precisam se candidatar, porém, é muito maior. Segundo a estimativa citada no relatório, pelo menos 350 mil pessoas teriam de se apresentar para a seleção até que fosse alcançado o total necessário de participantes, devido aos critérios de elegibilidade dos estudos.

O recrutamento é uma das principais dificuldades identificadas pela ADI. Muitas pessoas desconhecem a possibilidade de participar de pesquisas e nem sempre são encaminhadas pelos serviços de saúde para centros que realizam ensaios clínicos. O relatório propõe melhorar a informação e aproximar profissionais de saúde, centros de pesquisa e pessoas que possam ter interesse em participar.

A pesquisa ainda está concentrada em algumas regiões

A distribuição dos estudos pelo mundo também é desigual. O relatório contabiliza 3.156 locais ativos de ensaios clínicos na América do Norte, enquanto a América Latina tem 321. Europa Ocidental e Israel somam 1.363; Europa Oriental e Rússia, 661; a Ásia, sem contar o Japão, 571; e o Japão, 516.

Essa diferença não afeta apenas o acesso à pesquisa. Ela também interfere na qualidade das evidências produzidas. Quanto mais variadas forem as populações incluídas nos estudos, maior a possibilidade de compreender se diagnósticos e tratamentos funcionam da mesma forma em pessoas com diferentes origens genéticas, condições de saúde e contextos sociais.

Por isso, ampliar a presença de países da América Latina nos ensaios clínicos interessa também à própria ciência. O relatório dedica parte de sua análise à necessidade de tornar as pesquisas mais representativas das populações que vivem com demência em diferentes partes do mundo.

O que significa um tratamento funcionar

O relatório também propõe rever a forma como o sucesso de um ensaio clínico é avaliado. Biomarcadores e testes cognitivos continuam importantes, mas a ADI recomenda que os estudos meçam também resultados que façam diferença no cotidiano.

Isso inclui saber se um tratamento permite que a pessoa mantenha por mais tempo a independência, realize atividades diárias, preserve a comunicação e tenha melhor qualidade de vida. Esses critérios devem ser definidos desde o planejamento do estudo, e não avaliados apenas depois que a pesquisa termina.

Nesse processo, pessoas que vivem com demência e familiares também devem participar da construção das pesquisas. A recomendação é que sejam ouvidos desde as fases iniciais, contribuindo para a definição dos protocolos, dos resultados que serão avaliados e da própria experiência dos participantes. A ADI considera insuficiente consultar essas pessoas apenas quando as principais decisões sobre o estudo já foram tomadas.

O relatório também atribui um papel crescente às associações de Alzheimer e demência. Além do apoio às pessoas e às famílias, essas organizações podem ampliar o acesso a informações sobre ensaios clínicos, apoiar decisões informadas e atuar em temas como acesso à pesquisa, equidade e diversidade. A ADI recomenda fortalecer a participação das associações nacionais na pesquisa e na inovação em demência.

Ensaios clínicos não envolvem apenas medicamentos

Os 192 ensaios citados no levantamento referem-se à pesquisa de medicamentos para Alzheimer, mas o campo dos ensaios clínicos em demência é mais amplo. O relatório aborda também intervenções não farmacológicas, como reabilitação cognitiva, apoio psicossocial, programas de exercício, tecnologias digitais e modelos de cuidado.

A ADI recomenda ampliar a produção de evidências sobre essas abordagens e sobre estratégias de redução de riscos e mudanças no estilo de vida. A pesquisa de novos medicamentos continua sendo uma frente importante, mas o relatório mostra que melhorar a vida de quem vive com demência exige avanços também no diagnóstico, no cuidado, na reabilitação e no apoio oferecido às pessoas e às famílias.

O Relatório Mundial de Alzheimer 2026 está disponível em inglês. Quem preferir pode usar o recurso de tradução automática do navegador para acompanhar o conteúdo em português.