Por Lindsey Nakakogue
Nesta quarta-feira, 3 de dezembro, o congresso internacional CTAD (Clinical Trials on Alzheimer’s Disease), em San Diego (EUA), apresenta novos detalhes dos estudos EVOKE e EVOKE+, conduzidos pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, que avaliaram o uso da semaglutida na Doença de Alzheimer em fase inicial. A expectativa é de divulgação de uma análise mais completa dos resultados já anunciados em novembro.
Fomos surpreendidos com a notícia de que esses dois grandes estudos de fase 3 não atingiram seu objetivo principal: a semaglutida não conseguiu reduzir de forma estatisticamente significativa a progressão da Doença de Alzheimer, quando comparada ao placebo. Em termos práticos, isso significa que, ao longo do acompanhamento, as pessoas que receberam o medicamento não evoluíram melhor, em média, do que aquelas que receberam placebo nos testes que avaliam memória, raciocínio e capacidade de realizar atividades do dia a dia.
Há um aspecto importante a se destacar, embora o tratamento com semaglutida tenha resultado em melhoria de biomarcadores relacionados à Doença de Alzheimer em ambos os ensaios, essa mudança biológica não se traduziu em um atraso clínico da progressão da doença. Ou seja, vimos sinais nos exames, mas não uma diferença clara na vida prática das pessoas com comprometimento cognitivo leve ou demência leve devido à Doença de Alzheimer.
Os estudos EVOKE e EVOKE+ incluíram mais de 3.800 participantes, com idades entre 55 e 85 anos, todos com comprometimento cognitivo leve (MCI) ou demência leve devido à Doença de Alzheimer, e com presença de amiloide confirmada por exames específicos. Trata-se, portanto, de pesquisas robustas, bem desenhadas e com número suficiente de pessoas para que um eventual benefício fosse detectado com segurança.
A frustração é compreensível. A classe de medicamentos GLP-1, da qual a semaglutida faz parte, vinha sendo vista com grande interesse após estudos observacionais sugerirem possível proteção contra demência em pessoas em uso desses remédios para diabetes e obesidade. Isso não significa que “nada deu certo” ou que a pesquisa nessa área deva parar. A ciência funciona justamente assim: hipóteses são testadas em estudos rigorosos, algumas se confirmam, outras não e todas ajudam a entender melhor o caminho a seguir. Os efeitos positivos em biomarcadores, por exemplo, podem orientar futuras investigações em estratégias de prevenção ou em terapias combinadas, associando diferentes mecanismos de ação.
Enquanto isso, o cenário geral é de muita atividade científica. De acordo com uma avaliação anual do pipeline de desenvolvimento de medicamentos para Alzheimer, publicada em 2025 na revista científica Alzheimer & Dementia: Translational Research & Clinical Interventions, existem atualmente 182 ensaios clínicos ativos avaliando 138 medicamentos diferentes para a Doença de Alzheimer. Essa diversidade inclui drogas voltadas para amiloide e tau, inflamação, metabolismo, função sináptica, fatores vasculares e outros processos biológicos envolvidos na doença.
Nunca tivemos tanta pesquisa acontecendo ao mesmo tempo. Cada estudo, mesmo quando traz um resultado considerado “negativo”, contribui para ajustar o foco, descartar caminhos menos promissores e fortalecer aqueles que de fato podem trazer benefícios concretos para as pessoas que vivem com demência.
A esperança continua, não em uma única medicação, mas no conjunto de esforços de pesquisadores, profissionais de saúde, pessoas que participam de estudos clínicos e de todas as organizações que atuam por mais conhecimento e melhor cuidado na Doença de Alzheimer.
Para quem quiser acompanhar, o site oficial do CTAD reúne informações sobre o congresso. Segue o link: https://www.ctad-alzheimer.com/program
Lindsey Nakakogue
Diretora Científica da Febraz, médica formada pela Universidade Estadual de Londrina com residência em Clínica Médica na Unicamp e especialização em Geriatria na USP-SP. Professora de Medicina na PUC Londrina, com Mestrado pela PUC-PR e Doutorado em Saúde Coletiva pela UEL.
