Singapura aposta na integração entre saúde e comunidade para transformar o cuidado em demência

Federação Brasileira das Associações de Alzheimer

Enquanto muitos países ainda buscam garantir o básico, Singapura vem consolidando um modelo público de cuidado em demências com ações coordenadas em múltiplos níveis. Inclui a capacitação de familiares, programas de apoio domiciliar e comunitário, triagens preventivas, centros de acolhimento, recursos digitais e protocolos padronizados de formação profissional.

A cidade-estado, que fica no sudeste da Ásia e tem cerca de 6 milhões de habitantes, ostenta uma das economias mais desenvolvidas do mundo. Esta combinação de alto nível de riqueza, infraestrutura eficiente e governança pública sólida sustenta a capacidade de Singapura de estruturar e financiar programas de atenção à saúde mental e demência com alcance nacional.

A experiência de Singapura foi apresentada no seminário online promovido pela Alzheimer’s Disease International (ADI), na semana passada, para compartilhar boas práticas globais em demências.  A convidada foi Koh Hwan Jing, diretora-assistente sênior da Divisão de Apoio a Cuidadores e Saúde Mental Comunitária da Agência de Cuidados Integrados (AIC), órgão vinculado ao Ministério da Saúde de Singapura.

Como atua a AIC

A  Agência de Cuidados Integrados de Singapura foi criada para implementar estratégias de atenção à saúde e cuidado comunitário no país. Atua como elo entre pessoas idosas, ou que vivem com demência, e os serviços disponíveis, conectando quem precisa de apoio a programas públicos, formas de assistência e iniciativas de cuidado. Também dá suporte a organizações da sociedade civil, estimula parcerias, promove a transição entre níveis de cuidado e investe na formação e capacitação para o cuidado.

“Hoje falo como integrante da AIC e como alguém que atua há mais de 10 anos no setor de cuidados comunitários”, afirmou Koh. Segundo a especialista, o país tem como visão a construção de uma “comunidade de cuidados vibrante”, onde as pessoas possam envelhecer com bem-estar e dignidade. Para isso, investe em empoderamento da população com recursos e serviços para que possam permanecer ativas com segurança, e na transformação dos modelos de atenção, com foco nos territórios onde vivem as pessoas idosas e em uma rede comunitária cada vez mais robusta e qualificada.

A demência como prioridade de saúde pública

Com o rápido envelhecimento da população, Singapura estima que, até 2030, uma em cada quatro pessoas terá 65 anos ou mais. O número de pessoas vivendo com demência deve ultrapassar 150 mil. O cenário exige políticas para lidar com o aumento das doenças crônicas, dos quadros de saúde mental e da sobrecarga sobre os serviços de longo prazo.

Segundo pesquisa recente do Instituto de Saúde Mental de Singapura, um em cada 11 indivíduos com mais de 60 anos já vive com demência. Apesar disso, Koh destacou um avanço importante: a taxa de pessoas sem acesso a tratamento adequado caiu de mais de 70% em 2013 para 51% em 2023. “Acreditamos que essa redução é resultado direto dos esforços em aumentar a conscientização, educar a população e capacitar o setor comunitário para apoiar quem vive com demência”, afirmou.

Rede integrada com foco no território

Singapura adota uma abordagem territorial e integrada para o cuidado em demência, guiada por dois planos estratégicos nacionais: o Plano Diretor de Saúde Mental Comunitária e o Plano de Apoio a Cuidadores. Com base nessas diretrizes, foram estruturadas ações de educação, triagem para diagnóstico em tempo oportuno, suporte às famílias e expansão de serviços formais e informais nos bairros. Dois programas se destacam:

  • Equipes de Intervenção Comunitária (CITs) – oferecem suporte especializado a pessoas com demência que apresentam comportamentos desafiadores e a cuidadores que enfrentam altos níveis de estresse.
  • Equipes de Alcance Comunitário (CREST) – atuam em centros de convivência e envelhecimento ativo, promovendo informação, rastreamento e encaminhamento de casos com sinais iniciais da doença.

O sistema também inclui serviços de apoio pós-diagnóstico, que garantem acompanhamento estruturado para pessoas recém-diagnosticadas.

Comunidades amigas da demência

Um dos pilares do modelo de Singapura é o movimento por comunidades amigas da demência. Hoje o país conta com 16 comunidades certificadas como “dementia-friendly” e mais de 800 “pontos de referência para demência” espalhados pela ilha. São locais preparados para oferecer ajuda segura a quem se desorienta nas ruas, além de servir como centros de informação para famílias e para o público em geral. A campanha de adesão é ativa e busca engajar mais parceiros comunitários e cidadãos no movimento.

Formação com base em competências

Para garantir qualidade nos serviços, Singapura desenvolveu e implementou o Marco de Competências em Cuidado em Demência, que orienta toda a política de capacitação, organizando os conteúdos de treinamento de acordo com o nível de envolvimento de cada público, desde familiares e voluntários até especialistas.

“O modelo ajuda a definir quais métodos de ensino são mais apropriados para cada grupo, seja curso online, workshop ou estudo de caso”, explicou Koh.

A partir dessa estrutura, a AIC também desenvolveu um marco de avaliação, que orienta gestores na análise das habilidades de suas equipes, e um conjunto de recursos digitais reunidos no Dementia Hub, um portal que disponibiliza materiais para quem forma profissionais da área.

Saiba mais sobre a experiência de Singapura e de outros países, assistindo à gravação do seminário Aprimorando a Educação sobre demência por meio das melhores práticas globais, realizado pela Alzheimer’s Disease International, disponível  aqui.