Mapa do Cuidado – Dança e Parkinson – Porto Alegre (RS)

Federação Brasileira das Associações de Alzheimer

Por Christina Mattos

Desde cedo, a dança faz parte da vida da gaúcha Aline Haas. Bailarina, professora e pesquisadora, ela é referência na aplicação da dança como recurso de cuidado em saúde, especialmente para pessoas idosas com ou sem doenças neurológicas. Além de atuar na formação de profissionais, Aline lidera projetos que integram conhecimento científico, movimento e inclusão, promovendo mais saúde, vitalidade e pertencimento por meio da arte.

À frente do grupo de pesquisa Arte, Corpo e Educação (GRACE), na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ela coordena iniciativas que investigam os impactos da dança em diferentes contextos de reabilitação. Uma delas é o projeto

Dança e Parkinson que, apesar do nome, aceita também pessoas que vivem com Alzheimer e pessoas idosas em geral.

Por isso o _Dança e Parkinson _está no Mapa do Cuidado da Febraz, uma plataforma nacional que dá visibilidade a serviços gratuitos voltados às pessoas com diagnóstico em demência. Embora as inscrições não estejam abertas no momento dessa publicação, interessados podem entrar em contato para entrar na fila de espera.

Foto: Rochele Zandavalli

Sobre o projeto Dança e Parkinson | UFRGS | Porto Alegre

Tipo de serviço: Reabilitação por meio da dança, apoio à saúde física, cognitiva e emocional
Modalidade: Presencial
Público atendido: Pessoas idosas com ou sem doenças neurológicas
Gratuito: Sim
Periodicidade: Aulas realizadas duas vezes por semana — segundas e quartas-feiras
Tipo de iniciativa: Pública, vinculada à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Local:
Departamento de Educação Física, Fisioterapia e Dança
Rua Felizardo, 750 – Jardim Botânico – Porto Alegre (RS)
Contato:
(51) 3308-5824
dancaparkinsonesefid@gmail.com
Instagram: @‌dancaeparkinson

 

Entrevista: Aline Haas

 

O que a levou a trabalhar com arte e saúde da pessoa idosa?

Dra. Aline Haas – Minha motivação para trabalhar na intersecção arte e saúde com pessoas idosas começou quando eu fui morar na Espanha para fazer um doutorado em Medicina Desportiva no início dos anos 90. Nesse período, tive a oportunidade de ministrar aulas de dança para idosos e trabalhar com esse público pela primeira vez. Quando voltei ao Brasil e iniciei minha carreira como professora universitária, passei a focar meus projetos e pesquisas nessa área. A escuta sensível dos corpos que envelhecem me levou a querer construir espaços onde a arte fosse um canal de autonomia, alegria e pertencimento. Atuo há mais de 25 anos nessa área, oferecendo acesso à saúde por meio da dança para pessoas idosas com e sem doenças neurológicas e percebo que a dança pode ser uma potente ferramenta não-farmacológica de cuidado.

 

Quais aprendizados sobre dança e reabilitação você destaca nessa jornada?

Dra. Aline Haas – Ao longo da minha trajetória, como bailarina, professora universitária e, mais recentemente, como Global Atlantic Fellow para Equidade em Saúde Cerebral , um programa internacional que reúne lideranças dedicadas à promoção da saúde cerebral e da justiça social,  a pesquisa científica tem sido fundamental para consolidar os aprendizados sobre os efeitos da dança na reabilitação e suas interfaces com a saúde. A dança, mais do que uma técnica formal, faz parte da nossa cultura e através dela socializamos e nos comunicamos. Ela é uma prática de presença, escuta e adaptação. Destaco que, na revisão sistemática O impacto da dança sobre o risco de quedas em idosos, que publicamos em 2022, demonstramos que a dança pode ser eficaz na redução do risco de quedas, além de melhorar a mobilidade e contribuir para o envelhecimento ativo com qualidade de vida. Já em outra revisão sistemática mais recente, de 2023,  Efeitos da dança sobre o equilíbrio de pessoas com a doença de Parkinson, identificamos que a prática da dança melhora o equilíbrio de pessoas com Parkinson. Trabalhos desenvolvidos no projeto Dança para pessoas com AVC, Dança & Parkinson e no Centro de Referência do Envelhecimento e Movimento (CREM), sediados na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (ESEFID), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), reforçam essa perspectiva.  Os idosos que participam dos projetos de dança que coordeno na CREM/UFRGS relatam que a dança melhora sua qualidade vida, seu bem-estar emocional, auxilia na realização das suas atividades de vida-diária, promove socialização e melhora a independência funcional. Todos esses achados reforçam novamente que a dança pode ser uma ferramenta potente e integrativa de reabilitação física, cognitiva e social.

Pode compartilhar algum exemplo do impacto da dança na vida de participantes de projetos como o Dança e Parkinson?

Dra. Aline Haas – Coordeno o projeto Dança e Parkinson UFRGS há mais de 10 anos, e ao longo desse tempo tive o privilégio de acompanhar muitos relatos emocionantes sobre os impactos da dança na vida das pessoas. Mas, um exemplo que me toca profundamente é o do meu próprio pai, Claiton Haas. Há cerca de 3 anos, ele foi diagnosticado com Parkinson e passou a participar do projeto como aluno. Desde então, tornou-se um participante assíduo. Como coordenadora, vejo os efeitos da dança de forma técnica e científica; mas como filha, vivencio os benefícios de maneira muito mais íntima e afetiva. A dança tem contribuído para sua mobilidade, equilíbrio e autoestima, mas também para algo ainda mais importante: sua alegria de viver, seu vínculo com o grupo e sua motivação para manter-se ativo. Ele mesmo relata que as aulas fazem bem para o corpo e para o coração. Para quem quiser conhecer um pouco mais dessa vivência, temos um depoimento dele disponível em vídeo no perfil do projeto Dança e Parkinson UFRGS no Instagram. Ver meu pai dançar ao lado de outras pessoas com Parkinson, sorrindo, expressando-se e se sentindo pertencente, reafirma todos os dias o valor do trabalho que realizo.

 

Que obstáculos você encontrou para implementar os projetos (Dança & Parkinson e Dança para Pessoas com AVC) e como foram superados?

Dra. Aline Haas – Um dos principais obstáculos que enfrentei na implementação de projetos na área da dança e saúde que coordeno e de realizar pesquisas nessa área foi a falta de reconhecimento e valorização dela no Brasil. Ainda hoje, poucas pessoas atuam na interseção entre dança, saúde e envelhecimento no país, e muitos profissionais de saúde e das artes desconhecem o potencial terapêutico e preventivo da dança. Há também escassez de políticas públicas voltadas para intervenções artísticas em contextos de reabilitação, além de baixo investimento em pesquisa científica voltada a essa temática. Quando iniciei essa trajetória, há mais de 25 anos, tínhamos ainda menos informação disponível, e precisei buscar muito conhecimento fora do país para validar minha atuação. As experiências internacionais foram fundamentais para aprofundar minha formação e fortalecer a base científica dos projetos. Porém, destaco que, apesar dos desafios, tenho o privilégio de atuar em uma Universidade Pública de qualidade como a UFRGS, que me oferece infraestrutura, uma equipe dedicada de alunos de graduação e pós-graduação e espaços para desenvolver ensino, extensão e pesquisa, mesmo sem grandes financiamentos ou amplo apoio governamental e de agências de fomento de pesquisa nacionais. É importante pontuar também que superei esses obstáculos com persistência, diálogo e parcerias nacionais e internacionais. A escuta ativa das necessidades de cada participante dos projetos, a formação de redes de apoio e a produção de evidências científicas sobre os efeitos da dança foram fundamentais para legitimar e sustentar os projetos. Assim, sigo acreditando que precisamos ampliar a formação de profissionais na área das artes e saúde, investir em pesquisas de impacto e defender a inclusão da dança em políticas públicas de saúde e envelhecimento ativo.

 

A dança pode ser um recurso no cuidado em casa? Que orientações você daria a cuidadores familiares que queiram experimentar?

Dra. Aline Haas Sim, a dança pode estar presente no cotidiano dos cuidados em casa. Ela não precisa ser estruturada ou coreografada. Basta criar momentos para ouvir uma música juntos, explorar gestos simples e até mesmo dançar sentado, no caso do idoso que não consegue se levantar. O importante é a intenção de se conectar e desfrutar do movimento conectado à música. Para os cuidadores, minha sugestão é começar com músicas e danças que despertem boas lembranças e respeitar sempre os limites e vontades da pessoa cuidada. A dança pode proporcionar um momento de afeto, leveza e vínculo, especialmente em rotinas que costumam ser difíceis.

Como você enxerga o papel da dança e outras terapias não‐farmacológicas no envelhecimento ativo nos próximos anos?

Dra.Aline Haas – Vejo essas práticas como essenciais para um modelo de cuidado mais humano e integral. O envelhecimento ativo envolve não apenas manter a funcionalidade, mas também preservar a dignidade, a alegria e os vínculos sociais. A dança, assim como outras atividades artísticas, promove saúde cerebral, socialização e sentimento de pertencimento. Acredito que, nos próximos anos, com o aumento da longevidade e o avanço das pesquisas na área, as artes ganharão cada vez mais espaço nos sistemas de saúde, sendo incluídas nos cuidados domiciliares, nos centros especializados e nas políticas públicas.

Aline Haas é professora associada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde atua no Departamento de Educação Física, Fisioterapia e Dança. Realizou uma pesquisa de pós-doutorado na área da Dança e Ciência pela University of Wolverhampton (Reino Unido), é também Senior Atlantic Fellow pelo Global Brain Health Institute (Irlanda). Lidera o grupo de pesquisa “Arte, Corpo e Educação” (GRACE) e integra o Comitê de Pesquisa da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Sua produção acadêmica e prática se concentra nos efeitos da dança sobre a saúde e a qualidade de vida de pessoas com Parkinson e outras condições associadas ao envelhecimento.