Por Christina Mattos
Publicado em junho, um relatório do Fórum Econômico Mundial analisa a longevidade como uma questão que envolve saúde, renda, trabalho, previdência, cuidado e produtividade. O Dividendo da Longevidade (The Longevity Dividend: The Business Case for Linking Health and Wealth) mostra que viver mais sem saúde traz impactos para pessoas, famílias, empresas e governos. Crescem os gastos médicos, as saídas do mercado de trabalho, os desafios para familiares que cuidam e as perdas de produtividade.
O documento foi produzido pelo Fórum Econômico Mundial em colaboração com a Marsh, empresa global de gestão de riscos, seguros e consultoria. A análise reúne dados de 21 países, incluindo o Brasil, e estima que três intervenções de baixa complexidade poderiam gerar, até 2040, mais de US$ 5,8 trilhões em economia para sistemas de saúde e US$ 645 bilhões em ganhos de produtividade.
As medidas avaliadas são adaptações simples em residências para prevenir quedas, programas de atividade física para reduzir casos de diabetes tipo 2 e ampliação do acesso a aparelhos auditivos.
Este último ponto tem relação direta com o campo das demências. Segundo o relatório, cerca de 400 milhões de pessoas no mundo poderiam se beneficiar do uso de aparelhos auditivos, mas menos de 20% têm acesso a eles. A perda auditiva não tratada é apontada como um dos fatores modificáveis associados ao risco de demência.
A ampliação do uso de aparelhos auditivos poderia evitar 2,4 milhões de casos de demência até 2040 e gerar mais de US$ 320 bilhões em economia para sistemas de saúde. Os dados reforçam a importância de tratar prevenção, diagnóstico oportuno e apoio às famílias como parte da resposta pública às demências.
Brasil terá crescimento acelerado da população idosa
O Brasil aparece no relatório como um país em transição demográfica acelerada. Entre 2025 e 2040, a população brasileira com 65 anos ou mais deve crescer 68%. A média mundial projetada para o mesmo período é de 53%.
As demências estão entre as condições que mais exigem organização das famílias, dos serviços de saúde, da assistência social e das redes de cuidado em sociedades que envelhecem. O impacto vai além do diagnóstico. Alcança a renda familiar, a permanência de familiares no trabalho, a rotina doméstica e a necessidade de suporte contínuo.
A Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências, instituída pela Lei nº 14.878/2024, representa um avanço nesse debate. Para produzir efeitos concretos, precisa de um plano de ação multisetorial que articule uma rede de prevenção e cuidado.
Mulheres concentram o cuidado não remunerado e perdem renda ao longo da vida
O relatório também analisa o impacto do cuidado não remunerado. A publicação mostra que interrupções na carreira para cuidar de familiares reduzem renda, contribuição previdenciária e poupança para a aposentadoria.
De acordo com o documento, mais de 700 milhões de mulheres com 15 anos ou mais estão fora do mercado de trabalho em razão de responsabilidades de cuidado. Entre os homens, esse número é de 40 milhões.
Uma pausa de um ano para cuidar, combinada aos efeitos da desigualdade salarial entre homens e mulheres, pode reduzir em média 24% a poupança previdenciária de uma mulher.
No campo das demências, essa desigualdade aparece com ainda mais força. De acordo com o levantamento, as mulheres vivem, em média, mais anos com demência e respondem por cerca de 70% das horas de cuidado dedicadas a pessoas que vivem com demência.
Muitas cuidam de mães, pais, maridos e outros familiares por anos. Com frequência, reduzem jornada, interrompem a carreira ou deixam o trabalho. Mais tarde, envelhecem com menos renda, menor proteção previdenciária e maior vulnerabilidade.
O quadro mostra que a demência também precisa ser analisada sob a perspectiva de gênero. Os impactos do cuidado afetam a saúde, a autonomia financeira e a velhice de quem cuida.
Prevenção e cuidado precisam entrar no planejamento público
O relatório do Fórum Econômico Mundial contribui para ampliar o debate sobre longevidade ao mostrar que saúde e segurança financeira estão conectadas. No caso das demências, essa relação é evidente.
Quando o diagnóstico não chega em tempo oportuno, quando falta orientação e quando parceiros e parceiras de cuidado não recebem apoio, aumentam os impactos para a pessoa, para a família e para os sistemas públicos.
Planejar a longevidade exige integrar saúde, assistência social, trabalho, previdência, moradia e cuidado. Para as pessoas que vivem com demência e seus parceiros e parceiras de cuidado, essa integração é decisiva para garantir acompanhamento, reduzir desigualdades e preservar direitos.
O relatório completo, em inglês, está disponível no site oficial do Fórum Econômico Mundial. Acesse por meio do link:
