Por Christina Mattos
Um estudo desenvolvido por pesquisadores da UNIFESP e pela BioDecision Analytics, empresa que presta consultoria e outros serviços para a área de saúde e medicamentos, reuniu e reanalisou dados de 2.870 amostras de cérebro e sangue para construir o Atlas Transcriptômico Multirregional da Doença de Alzheimer, um “mapa” de padrões na atividade de genes associados à doença.
A partir desse panorama, a equipe descreve potenciais biomarcadores e possíveis alvos terapêuticos que podem orientar pesquisas futuras. Segundo os autores, os achados podem fortalecer etapas iniciais da descoberta de tratamentos e o desenho de estudos clínicos mais precisos, com a ressalva de que ainda exigem validações adicionais antes de qualquer aplicação na prática.
A Febraz acompanha o projeto desde 2024 e apoia a divulgação dos avanços para aproximar ciência, profissionais e famílias. A seguir, os pesquisadores que lideram o estudo, Prof. Dr. Rodrigo Pinheiro Araldi, professor da Escola Paulista de Medicina da UNIFESP e Prof. Dr. João Rafael Dias Pinto, professor visitante de Data Analytics e Inteligência Artificial da Fundação Getúlio Vargas, cofundadores da BioDecision Analytics, detalham como foi conduzida a pesquisa e quais são os próximos passos.
Dr. Rodrigo Pinheiro Araldi
Dr. João Rafael Dias Pinto
1 – De onde vieram os dados usados para construir o Atlas Transcriptômico Multirregional da Doença de Alzheimer?
Os dados vieram do Sequence Read Archive (SRA), uma base pública que reúne sequenciamentos genéticos enviados por pesquisadores do mundo todo. Para compor o Atlas, foram selecionadas apenas amostras de indivíduos com Alzheimer confirmado ou neurologicamente saudáveis, sem outras doenças neurológicas. Idade e sexo foram pareados entre casos e controles para garantir comparabilidade. Esses critérios asseguraram que as diferenças observadas refletissem a própria doença.
2 – O que significa analisar quais genes ficam mais “ligados” ou “desligados” e que tipo de pista isso pode revelar sobre o Alzheimer? O que esse mapa revela?
Analisar genes “ligados” ou “desligados” significa observar quais deles estão mais ativos ou menos ativos nas pessoas com Alzheimer, formando uma assinatura genética da doença. Quando certos genes produzem mais RNA (ligados) e outros produzem menos (desligados), isso revela desequilíbrios que ajudam a explicar sintomas e danos no cérebro. Identificar esses grupos de genes oferece pistas para criar medicamentos e desenvolver testes diagnóstico baseados em biomarcadores no sangue. O mapa gerado mostra, pela primeira vez, centenas de possíveis alvos terapêuticos e biomarcadores, incluindo alvos inéditos, representando um avanço importante na compreensão da doença de Alzheimer e no caminho para tratamentos e diagnósticos mais precisos.
3 – No estudo, vocês integram informações de cérebro e sangue. Por que juntar esses dois retratos?
Integrar informações de cérebro e sangue ajuda a responder perguntas diferentes sobre o Alzheimer. Primeiro analisamos o cérebro, porque é nele que a doença acontece; identificar genes desregulados em várias regiões ao mesmo tempo ajuda a entender melhor os mecanismos da doença e a encontrar moléculas que possam ajudar no desenvolvimento de novos medicamentos. Avaliamos cinco grandes áreas cerebrais ligadas à memória, linguagem, audição e visão, todas afetadas pelo Alzheimer. Mas nem sempre esses genes alterados no cérebro aparecem no sangue, que é o material mais fácil de ser coletado para exames. Por isso incluímos também amostras de sangue, buscando biomarcadores acessíveis que possam ajudar no diagnóstico oportuno e preciso da doença, bem como avaliar a evolução clínica da doença.
4 – Para ficar bem claro, o que é um biomarcador e o que é um alvo terapêutico?
Um biomarcador é uma molécula que pode ser um produto expresso por um gene, como RNA, proteína ou metabólito que funciona como um “sinal” da doença. Ele ajuda a identificar se algo está errado e pode ser usado em exames, como os de sangue, para apoiar um diagnóstico ou até mesmo acompanhar a evolução clínica da doença. Já um alvo terapêutico é uma molécula envolvida no processo da doença e que pode ser “atingida” por um medicamento para tentar interromper, reduzir ou reverter sua ação. Enquanto o biomarcador ajuda a detectar, o alvo terapêutico ajuda a tratar.
5 – O resultado da pesquisa aponta biomarcadores com bom desempenho para diferenciar grupos e potenciais alvos terapêuticos. Explique os benefícios que podem vir a partir desses achados.
Os achados trazem benefícios importantes porque revelam biomarcadores capazes de diferenciar pessoas com Alzheimer de indivíduos saudáveis e alvos terapêuticos que podem orientar a criação de novos remédios. Esses alvos ajudam a indústria farmacêutica a desenvolver moléculas mais eficazes ou até reaproveitar medicamentos já existentes (reposicionamento de drogas). Como o estudo gerou o maior banco de dados que integra informações de diferentes áreas do cérebro e sangue, ele pode acelerar a pesquisa e o desenvolvimento de novos medicamentos, bem como apoiar estudos clínicos oferecendo suporte no entendimento do mecanismo de ação de produtos sob investigação para a doença.
6 – O que acontece agora?
Os próximos passos envolvem levar esses resultados para a comunidade científica e para quem pode transformá‑los em benefícios reais para os pacientes. Os achados serão apresentados nos principais eventos internacionais sobre Alzheimer, incluindo o AD/PD 2026, em Copenhague (Março/26), e o AAIC 2026, em Londres (Julho/26). O estudo já foi compartilhado com a coordenadora do comitê científico da Febraz, Dra. Lindsey Nakakogue, que tem nos apoiado na divulgação deste importante estudo e será apresentado em breve ao comitê científico da Alzheimer’s Disease International (ADI). Paralelamente, desejamos engajar a indústria farmacêutica e centros diagnósticos no Brasil e no exterior, para que esses alvos terapêuticos e biomarcadores possam ser transformados em novos medicamentos e exames que realmente cheguem aos pacientes.
7 – Qual a mensagem mais importante que essa pesquisa traz para as pessoas que têm diagnóstico de DA e suas famílias?
A mensagem mais importante para quem vive com Alzheimer e para suas famílias é que a ciência está avançando e que o Brasil faz parte deste avanço, com pesquisa e pesquisadores de ponta. Neste sentido, iniciativas como a da BioDecision ampliam as perspectivas na busca de novos tratamentos mais eficazes para a doença. Assim, o Atlas Transcriptômico Multirregional da Doença de Alzheimer é um passo inédito e fundamental rumo a terapias mais eficazes e a um diagnóstico preciso da doença, trazendo esperança de cuidados melhores e mais personalizados.
