Por Christina Mattos
O programa FOCOS – Fortalecimento das Capacidades de Organizações e de Agentes Sociais de Mudança, realizado pela Febraz, terminou na última sexta-feira, 21 de novembro. Ao longo de encontros online, desde setembro, e o workshop presencial de encerramento em Londrina (PR), representantes de associações, coletivos, serviços, pesquisadores e profissionais de saúde construíram juntos uma agenda coletiva para atuação em defesa dos direitos no campo das demências.
A capacitação funcionou como um laboratório de articulação nacional, em sintonia com a Política Nacional de Enfrentamento às Demências, aprovada em 2024. O curso foi desenhado para apoiar lideranças na compreensão do ciclo das políticas públicas, no diálogo com Executivo e Legislativo e na construção de planos de ação realistas em cada território.
“Uma etapa de um trabalho que precisa continuar”
Para Elaine Mateus, presidente da Febraz, o FOCOS reafirma o papel da entidade como articuladora de um trabalho em rede. “O FOCOS foi, ao longo dos últimos meses, uma oportunidade de consolidar o trabalho em rede que vem sendo desenvolvido no Brasil há tanto tempo, por tantas entidades, por tantas pessoas da sociedade civil e que agora, de uma certa maneira, se organiza e integra várias iniciativas”, afirma Elaine.
Segundo ela, o objetivo central é transformar necessidades das famílias em respostas efetivas que cheguem de fato às pessoas que vivem com demência, suas parceiras e parceiros de cuidado. “É um trabalho que não termina hoje, mas uma primeira etapa de um movimento que nós esperamos que possa se desenvolver cada vez mais e se ampliar. Queremos que outros possam também vir participar conosco futuramente”, completa.
Diversidade de experiências, uma mesma pauta
Responsável pela capacitação, a economista e demógrafa Cristina Guimarães ressalta que o FOCOS proporcionou o encontro entre perfis muito diferentes, mas com uma mesma intenção. “Foi muito especial por unir pessoas distintas, de áreas diferentes, mas que convergem em um desejo de transformar a realidade das demências e do envelhecimento no país. É um grupo muito participativo, com muita vontade de trabalhar em conjunto”, avalia.
Desde o início, a estrutura do curso foi construída a partir de um diagnóstico prévio feito com as organizações participantes, identificando dúvidas comuns sobre advocacy, políticas públicas e estratégias de mobilização. A proposta era sair com uma mensagem alinhada, com foco nas principais urgências, e com caminhos para atuar em conjunto.
No encontro presencial de encerramento, Cristina provocou o grupo a responder a uma pergunta-chave: o que podemos fazer juntos que, sozinhos, não conseguiríamos fazer? A agenda coletiva construída reúne prioridades comuns e indica a importância de manter formas estruturadas de comunicação, de forma contínua, após o fim da formação.
Os depoimentos dos participantes reforçam o caráter prático do FOCOS e o impacto da formação. Para Christiano Barbosa, presidente da Apaz e diretor da Febraz, o encontro presencial fez diferença no amadurecimento da pauta conjunta. “Estar juntos presencialmente fortalece muito mais as nossas ações neste momento e no futuro. É muito importante para o nosso plano de ação para os próximos anos e para a gente conseguir visualizar se o que nós estamos estabelecendo, de fato, está se tornando uma prática, em ações efetivas nos cuidados que envolvem demências”, avalia.
Ele destaca ainda que a formação trouxe clareza sobre o mapeamento de atores e sobre os caminhos que precisam ser trilhados para que as propostas avancem tanto nos estados quanto no âmbito nacional.
A professora Emanuela Mattos, da Universidade Federal de São Paulo, participou do FOCOS a partir da experiência do projeto “Amigos da Demência”, uma tecnologia social pioneira desenvolvida em Santos (SP). Para ela, a principal contribuição da capacitação é unir forças. “A minha expectativa é que, a partir daqui a gente possa costurar melhor tudo o que vem sendo feito, para que possamos seguir mais juntos para o mesmo objetivo. Nós somos porta-vozes daquelas pessoas que realmente precisam receber essa política de verdade, no dia a dia”, afirma.
A jornalista Lina Menezes, que trabalha com demências há três décadas, vê no FOCOS uma oportunidade singular de qualificação da atuação política. “Nós, enquanto profissionais que atuam nesse segmento, temos pouco conhecimento, de fato, em termos de políticas públicas, dos caminhos que a gente pode construir para que a gente obtenha sucesso na construção de direitos. Eu já estou multiplicando esse conhecimento, para que a gente possa repetir esse curso, ampliando para outros profissionais”, conta.
Apoiadora da Febraz na iniciativa, a farmacêutica Lilly do Brasil também acompanhou todo o percurso da formação. Para Marcela Tulli, gerente de Advocacy e Políticas Públicas da empresa, o encontro final simboliza um passo importante para garantir que a voz das pessoas que vivem com demência seja ouvida nas instâncias de decisão. “O encontro presencial é muito legal porque, além de fazer um plano de ação com a participação de todo mundo, temos esse espaço de fortalecimento de rede, criação de vínculos e de formar um consenso em pontos superimportantes para que a voz da pessoa com demência seja ouvida”, afirma.
Compromisso: fortalecer a atuação em rede
Ao encerrar esta primeira edição, a Febraz e os participantes do FOCOS seguem com o compromisso de manter viva a articulação construída ao longo dos meses de trabalho. Como lembrou Cristina Guimarães em entrevista à Febraz, políticas públicas não nascem apenas de evidências, mas também de disputas de interesse e é por isso que a mobilização da sociedade civil é tão decisiva.
Em breve, vamos divulgar aqui o documento final, com o plano de ação construído ao longo desta edição do FOCOS, para você conferir em detalhes.





