Por Ticyana Novais
Cuidar de alguém com Alzheimer é, antes de tudo, um ato de amor. Mas amor, sozinho, não sustenta uma jornada tão exigente. O cuidado contínuo demanda tempo, energia física e uma estabilidade emocional que nem sempre é possível manter. A sobrecarga é real — e reconhecê-la não é sinal de fraqueza, mas de lucidez.
Quem cuida convive diariamente com perdas sutis, mudanças de comportamento e desafios imprevisíveis. A empatia, tão essencial para compreender o sofrimento do outro, também pode abrir espaço para o chamado “contágio emocional”: o cuidador absorve a dor, a frustração e o medo da pessoa doente. Aos poucos, pode surgir irritação, culpa, tristeza, exaustão ou até ressentimento. Essas emoções são humanas e não significam falta de amor. Significam que há alguém ali sentindo — e precisando de cuidado também.
Autocuidado não é egoísmo. Pequenas pausas ao longo do dia, alimentar-se com calma, dormir quando possível, respirar fundo, caminhar ou pedir ajuda são atitudes que preservam a saúde física e mental. Limites são necessários: definir até onde é possível ir, evitar assumir tudo sozinho e aprender a dizer “não” protegem o cuidador do esgotamento.
O conhecimento também é um aliado. Entender o Alzheimer ajuda a evitar conflitos desnecessários, reduzir frustrações, adaptar a comunicação e planejar melhor a rotina. Quanto mais informação, menos sofrimento causado por expectativas irreais.
É fundamental construir uma rede de apoio: dividir tarefas, programar folgas, considerar ajuda profissional eventual e participar de grupos de cuidadores. Atenção aos sinais de alerta — irritabilidade constante, insônia, choro frequente, perda de interesse pela vida ou tensão corporal persistente indicam que é hora de buscar ajuda. Psicoterapia, avaliação médica e revezamento familiar fazem diferença.
Cuidar de si é cuidar melhor do outro. O cuidador também merece descanso, reconhecimento e suporte. Sustentar o cuidado ao outro começa por não abandonar a si mesmo no caminho.
Ticyana Novais
Conselheira da Febraz, integrante da Comissão Científica. Vice-presidente do Instituto Alzheimer Brasil (Curitiba- PR), Neuropsicóloga, Especialista em Gerontologia pela FIES-PR, Mestre em Biologia Celular e Molecular / Fisiologia pela UFPR.
