Donanemabe: novo tratamento para Alzheimer tem custo estimado acima de R$ 20 mil por mês

Federação Brasileira das Associações de Alzheimer
Por Christina Mattos

A farmacêutica Eli Lilly anunciou que o preço de fábrica do donanemabe, novo medicamento para tratamento da doença de Alzheimer em estágio inicial, foi aprovado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). O valor divulgado pela empresa é de R$ 5.194,16 por ampola, com ICMS de 18% incluso. Até o fechamento deste texto, a aprovação ainda não constava nas publicações oficiais da CMED, segundo a Eli Lilly, a definição ocorreu em 24 de julho, três meses após a  aprovação do registro pela ANVISA.

Comercializado sob o nome Kisunla, o donanemabe é indicado para pessoas com comprometimento cognitivo leve ou demência leve associada ao Alzheimer, desde que apresentem biomarcadores da doença e passem por testagem genética. A posologia prevista prevê a administração mensal por 18 meses, e a partir da terceira ou quarta infusão, a dose recomendada é de 1400 mg mensais, o que equivale a quatro ampolas por aplicação.

Portanto, o custo mensal do tratamento pode chegar a R$ 20.776,64, considerando apenas o preço de fábrica. “Esse valor ainda não reflete o preço final ao consumidor, que será maior devido a margens de revenda, impostos adicionais e custos operacionais”, explica a médica neurologista Sônia Brucki, professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e diretora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital das Clínicas da FMUSP.

Sônia Brucki - Neurologista

Além do alto custo da medicação, o tratamento exige a realização de exames específicos e acompanhamento rigoroso. “Devemos considerar também outros custos obrigatórios, como a realização de seis ressonâncias magnéticas ao longo do tratamento e exames adicionais caso haja efeitos colaterais”, explica Brucki. Para iniciar o uso do medicamento, é necessário comprovar a presença de biomarcadores da doença por meio de líquor (LCR) ou PET amiloide, e realizar testagem genética do gene APOE. Apenas pessoas com um alelo E4 ou sem alelos E4 podem receber a medicação. “Futuramente, esses exames poderão ser substituídos por testes de sangue, o que provavelmente facilitará o acesso”, avalia a especialista.

Diante da complexidade do tratamento e da necessidade de infraestrutura especializada, a médica pondera que ainda não seria viável incorporar o medicamento ao Sistema Único de Saúde (SUS). “Deve-se preparar o sistema para um diagnóstico com acurácia, ter biomarcadores disponíveis, capacidade de realização das ressonâncias magnéticas sucessivas e centros capazes de fazer o manejo de possíveis efeitos colaterais, que podem ser graves, mesmo que raros”, afirma.

Apesar das dificuldades, Brucki vê no donanemabe um avanço promissor. “É um ponto de virada nos cuidados de indivíduos com Alzheimer. A educação dos profissionais de saúde deverá ocorrer desde os cursos universitários e treinamentos em residências multiprofissionais. Acredito fortemente que outros tratamentos surgirão.”

A Febraz acompanha com entusiasmo os avanços científicos, porém defende que os custos não aprofundem desigualdades já existentes no Brasil. “A chegada de um novo medicamento é sempre uma notícia importante, mas é preciso garantir que o tratamento não se torne privilégio de poucos”, afirma Elaine Mateus, presidente da Febraz. “Defendemos que o acesso ao tratamento não dependa da renda da família, mas de critérios técnicos e do direito à saúde garantido pela Constituição.”

 

Comente o assunto. Envie uma mensagem para a _Febraz.