Por Christina Mattos
O neurocientista brasileiro Mychael Lourenço, professor da UFRJ, recebeu o ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research 2026, prêmio internacional que reconhece pesquisadores por contribuições relevantes para a compreensão das doenças do cérebro.
A conquista amplia a visibilidade de uma trajetória já reconhecida, mas, nesta entrevista à Febraz, o foco está menos no prêmio em si e mais no que vem pela frente. Lourenço compartilha os caminhos que hoje orientam sua pesquisa: a busca por formas de detectar o Alzheimer mais cedo na população brasileira, o interesse em entender por que algumas pessoas envelhecem com mais preservação cognitiva e a convicção de que prevenção, diagnóstico em tempo oportuno, qualificação dos profissionais de saúde e políticas públicas precisam caminhar juntos.
Ao comentar também o avanço de novos tratamentos, ele ajuda a traduzir, de forma clara, o que a ciência já conseguiu enxergar e o que ainda precisa avançar para responder melhor às necessidades de quem vive com a doença e de suas famílias.
Entrevista | Mychael Lourenço
Quais têm sido os principais obstáculos para estudar Alzheimer?
Mychael Lourenço – Uma dificuldade para se estudar Alzheimer é a própria complexidade dessa doença multifatorial. Temos que levar muitos parâmetros em consideração. Isso torna mais difícil o caminho de pesquisadores interessados em seguir por essa área, mas, ao mesmo tempo, é uma doença fascinante e que demanda soluções urgentes. Isso nos dá coragem e ânimo para seguir nessa área.
O que um prêmio internacional representa nesse contexto?
Mychael Lourenço – O prêmio internacional é um reconhecimento. Veio em meu nome, mas reconhece o trabalho que o grupo está fazendo. É um momento de atenção para o que os pesquisadores brasileiros têm feito na área de demências. Temos contribuído de forma bastante importante, significativa, fazendo ciência de qualidade.
Isso está sendo reconhecido pela comunidade científica internacional na área. É uma felicidade, uma honra receber esse prêmio, e ele demonstra que estamos no caminho certo nas pesquisas nessa área. Vários outros cientistas brasileiros têm recebido prêmios na área, e eu mesmo já tinha recebido outros prêmios internacionais. É um motivo de muito orgulho e de muita felicidade saber que estão reconhecendo as contribuições que o Brasil tem feito nesse campo.
Qual é hoje o seu foco principal de pesquisa?
Mychael Lourenço: Esse prêmio reconhece a trajetória e as contribuições que fizemos até agora, mas, claro, a gente sempre precisa olhar para o futuro. Neste momento, meu interesse está em estudar a população brasileira, tentar identificar novos marcadores — biomarcadores que permitam detectar a doença cada vez mais cedo — e validar aqueles que já são conhecidos.
A partir de dados humanos e das análises de amostras brasileiras, o objetivo é entender melhor o curso da doença e as diferenças intrínsecas que existem dentro do que conhecemos como demência e doença de Alzheimer. Os cursos da doença são diferentes, e precisamos compreender essa diversidade, essa heterogeneidade de trajetórias. Esse é um dos meus objetivos agora.
Em uma entrevista recente, o senhor comentou que pessoas longevas e saudáveis podem ajudar a ciência a compreender melhor o Alzheimer e citou a atriz Fernanda Montenegro como exemplo. Por quê?
Mychael Lourenço: É interessante perceber que nem todo idoso vai desenvolver doença de Alzheimer ou outra demência. Existem trajetórias que são cognitivamente saudáveis. Conhecer e estudar essas pessoas talvez possa nos dar pistas do que é preciso fazer para evitar que aqueles que têm alto risco ou que já estão no caminho da neurodegeneração consigam interromper esse processo.
Conhecer o que torna o cérebro de algumas pessoas resiliente e resistente ao dano causado pela doença de Alzheimer deve ser a chave, ou pode ser a chave, para entendermos o que pode ser feito naquelas outras pessoas que são suscetíveis. Foi por isso que fiz esse comentário, e essa também é uma linha de interesse no nosso laboratório: estudar a resiliência à doença de Alzheimer.
O que já sabemos de mais importante sobre prevenção?
Mychael Lourenço: Já aprendemos bastante sobre prevenção, inclusive sobre prevenção na população brasileira. Existe uma série de fatores de risco da doença, desde doenças metabólicas, sedentarismo, obesidade e redução da interação social. Sabemos que, na população brasileira, baixa escolaridade, diabetes tipo 2, doenças coronarianas e depressão se destacam entre os fatores de risco.
Ao mesmo tempo, prevenir e controlar essas condições, além de adotar hábitos de vida mais saudáveis — como prática regular de exercícios físicos, controle nutricional adequado, acompanhamento, estímulo cognitivo, não fumar e beber álcool moderadamente, no máximo — contribui para reduzir o risco de doença de Alzheimer.
Temos um estudo do grupo de pesquisa da dra. Cláudia Suemoto mostrando que poderíamos prevenir grande parte dos casos de demência em nosso país controlando esses fatores mais importantes. É uma questão de política pública que precisamos trabalhar.
O que esperar dos novos tratamentos para Alzheimer e do acesso da população a essas terapias?
Mychael Lourenço: Nós estamos vivendo um momento muito otimista na ciência. Depois de 20 anos sem aprovação de novos medicamentos para a doença de Alzheimer, tivemos agora, em sequência, três medicamentos, dos quais dois ainda continuam no mercado e foram aprovados recentemente no Brasil: o lecanemab e o donanemab. São os medicamentos mais eficazes contra a doença até agora.
Ainda não representam a cura, mas são os que apresentam os melhores resultados para os pacientes e parecem atingir parte da causa da doença, que é o acúmulo da proteína beta-amiloide no cérebro.
Ainda não temos a cura, mas esse cenário abre uma perspectiva otimista, de que vamos desenvolver cada vez mais e melhores medicamentos para tratar a doença de Alzheimer. Esses anticorpos, essas imunoterapias, tendem a se tornar cada vez mais eficientes. A gente também tende a identificar a doença cada vez mais cedo, o que torna o cenário ainda mais promissor, porque intervir antes pode representar uma chance maior de sucesso.
Eu acredito também que essas imunoterapias devem começar a ser testadas em combinação com outras abordagens. Existem outros medicamentos em teste. O repertório de medicamentos em desenvolvimento é considerável, e o investimento em pesquisa também. Então, eu acho que este é um momento favorável para a ciência e para o desenvolvimento de novos tratamentos.
Os medicamentos aprovados atualmente, esses mais novos, têm um custo bastante alto, o que, no caso do Brasil, dificulta a incorporação deles no SUS, pelo menos neste momento inicial. É claro que isso sempre pode ser revisto e discutido posteriormente. Mas eu acredito que o aperfeiçoamento desses medicamentos pode fazer com que mais pessoas tenham acesso.
Também é importante lembrar que esses medicamentos recém-aprovados não são indicados para todos os pacientes. É necessária uma triagem cuidadosa, uma seleção criteriosa de quem tem indicação para recebê-los. Mas, apesar de ainda não termos hoje um medicamento eficaz e de amplo acesso, eu acho que a perspectiva futura é bastante otimista, tanto pelo desenvolvimento de novos medicamentos quanto por essas eventuais terapias combinadas.
O tema da campanha do Mês Mundial de Alzheimer em 2026 é o diagnóstico em tempo oportuno. Descobrir cedo realmente faz diferença?
Mychael Lourenço: O diagnóstico em tempo oportuno é realmente muito importante, porque hoje a gente já tem abordagens que permitem ao paciente acompanhar se tem depósitos de beta-amiloide, depósitos de proteína tau. Muitos desses testes são exames de imagem, por PET scan. E hoje a gente tem o advento dos biomarcadores plasmáticos, que ainda não estão aprovados para uso clínico no Brasil, mas oferecem uma perspectiva muito interessante.
Creio que nós vamos conseguir, em breve, medir e rastrear a doença de Alzheimer de uma forma muito mais eficaz, muito por conta desses biomarcadores no sangue. Porém, não é só uma questão de biomarcadores. Na prática clínica, ter profissionais bem treinados, capazes de fazer uma triagem inicial e encaminhar esses pacientes para uma atenção mais especializada é muito importante também para a gente diagnosticar cedo.
Descobrir cedo faz diferença porque a chance de intervenção é maior. Hoje, ainda não temos a cura, nem da doença de Alzheimer nem de nenhuma outra demência relacionada, mas, pelo menos, isso melhora a qualidade de vida e aumenta o leque de possibilidades de intervenção. E eu sou bastante otimista. Creio que isso também vai abrir perspectivas futuras de tratamentos mais eficazes.
O que pode ser feito para reduzir a baixa taxa de diagnóstico de demências no Brasil?
Mychael Lourenço: Precisamos adotar medidas de política pública para reduzir o subdiagnóstico no Brasil. Há estimativas de ótimos epidemiologistas, como a dra. Cleusa Ferri e outros pesquisadores que vêm trabalhando nesse tema, de que a taxa de subdiagnóstico no país pode ser enorme.
Claro que a gente enfrenta dificuldades, como as desigualdades regionais. A capilaridade do atendimento e da atenção especializada ainda não é tão grande no Brasil. Mas a gente precisa treinar os profissionais que estão na ponta para que sejam capazes de identificar possíveis casos de demência, de declínio cognitivo fora do padrão normal, para que esses pacientes possam depois receber atendimento de referência, ser encaminhados para serviços especializados e, aí sim, ser tratados e manejados da melhor forma possível.
Eu acho que o treinamento das equipes de saúde para identificar casos de demência, especialmente na atenção primária, é muito importante. A gente também precisa ampliar os centros de pesquisa em doença de Alzheimer e demência no Brasil, porque isso vai facilitar que a gente conheça melhor a nossa população.
Além de pesquisa, devemos investir em políticas públicas de conscientização. Porque, se as pessoas tiverem mais clareza sobre o que é a demência, o que é a doença de Alzheimer e como aparecem os primeiros sintomas, talvez elas e seus familiares também estejam mais abertas a procurar os serviços de saúde.
**Saiba mais sobre o trabalho do pesquisador Mychael Lourenço e equipe no site do **Lourenço Lab.
