por Leandro Minozzo
Começamos o ano com boas perspectivas para um melhor cuidado em demências. Os resultados de pesquisas científicas apresentados ao longo do último período, assim como alguns avanços no aumento do conhecimento por parte da população e de lideranças — como políticos e jornalistas —, nos dão motivos para esse otimismo.
Costumo, em palestras e aulas sobre políticas públicas em demências, apresentar as chamadas “5 revoluções no cuidado em Alzheimer”. Elas representam mudanças de paradigma em áreas como diagnóstico, prevenção, tratamento, gestão do cuidado e políticas públicas. Se, em 2022, quando comecei a utilizar essa expressão para apontar para um horizonte mais promissor, ela já fazia sentido, agora, em 2026, torna-se ainda mais pertinente.
Houve um avanço marcante em 2025 em todas as cinco áreas estratégicas do cuidado em Alzheimer. Estudos sobre biomarcadores plasmáticos avançaram, novos tratamentos foram aprovados pela Anvisa, o cuidado de quem cuida passou a ser reconhecido como fundamental, e a prevenção deixou de ser uma dúvida: ela é possível, e hoje conhecemos bem os 14 principais fatores de risco.
E, na área “revolucionária” mais importante — a das políticas públicas —, também observamos avanços em diversas partes do Brasil. De norte a sul, há iniciativas que buscam melhorar o diagnóstico, a conscientização e o tratamento. No Rio Grande do Sul, por exemplo, está em curso o Plano Estadual de Cuidado Integral em Demências (PECID), que entra em seu segundo ano de implementação com entregas concretas realizadas pela Secretaria Estadual de Saúde. O programa Saúde 60+ já inaugurou 13 centros especializados no atendimento a pessoas idosas com fragilidade ou com suspeita e/ou diagnóstico de demência, com orçamento superior a 30 milhões de reais.
No estado, pesquisas realizadas pela UFRGS, coordenadas pelo Dr. Eduardo Zimmer, já analisam biomarcadores plasmáticos para Alzheimer em grande escala, o que, em breve, deverá gerar dados relevantes para a aplicabilidade clínica desses exames na população. No município de Dois Irmãos (RS), foi iniciada uma política local inovadora que garantirá, além da capacitação de profissionais do SUS, um tempo mínimo de 60 minutos de atendimento na atenção primária para casos com suspeita ou diagnóstico de demência.
No Ceará, há o avanço da Linha de Cuidado em Demências, uma iniciativa do Governo Estadual que organiza e qualifica o cuidado no âmbito do SUS. Seguindo o exemplo desses dois estados, outras seis iniciativas legislativas estaduais voltadas ao cuidado em Alzheimer tramitam atualmente no país.
Com o fortalecimento da Coalizão Nacional das Demências (CoNaDe) e sua aproximação com o Ministério da Saúde, cresce ainda mais o otimismo para que ideias sejam transformadas em políticas públicas efetivas. Em 2025, a CoNaDe elaborou um importante documento que mapeia iniciativas e oportunidades para a construção de um plano capaz de responder às necessidades das pessoas que vivem com demência e de suas famílias, respeitando as particularidades do SUS.
Com essa aproximação, acreditamos que o Governo Federal apresente, ainda em 2026, o tão esperado Plano Nacional de Demências, colocando em prática a Lei nº 14.878/24 — de autoria do senador Paulo Paim e construída a partir da mobilização da sociedade civil. Dessa forma, o Brasil não apenas cumprirá seu compromisso legal e o pacto firmado com a Organização Mundial da Saúde, como também dará um passo decisivo para cuidar melhor das mais de 2 milhões de pessoas com demência que necessitam de maior atenção.
Nunca se falou tanto sobre cognição, prevenção, Alzheimer e outros aspectos das demências. E nunca estivemos tão próximos de testemunhar a concretização desses avanços — das cinco revoluções no cuidado e, sobretudo, da assinatura do Plano Nacional de Demências.
Dr. Leandro Minozzo
Médico geriatra associado da SBGG, Prof. de Geriatria da Univ. FEEVALE. Mestre em Educação. Pós-MBA em Liderança. Doutorando em Gerontologia Biomédica. Autor de livros sobre longevidade e Alzheimer. Advocate em demências. É um dos coordenadores da Conade (Coalizão Nacional em Demências). Idealizador do Plano Estadual de Cuidado Integral de Demências (PECID) do RS.
