Por Christiano Barbosa
O envelhecimento populacional e o aumento no número de pessoas vivendo com demências impõem desafios crescentes aos sistemas de saúde, às famílias e à sociedade. Nesse contexto, as Comunidades Compassivas se apresentam como uma estratégia eficiente para ampliar o cuidado, promover a inclusão social e fortalecer redes de apoio.
O conceito de comunidade compassiva surgiu em 1998, na Universidade de La Trobe (Austrália), desenvolvido pelo médico e sociólogo britânico Allan Kellehear, com base na proposta de “Cidades e Comunidades Saudáveis” da Organização Mundial da Saúde (OMS). Esse modelo defende que o cuidado em saúde e o bem-estar social são responsabilidades compartilhadas entre serviços públicos, organizações sociais e a própria comunidade.
As comunidades compassivas articulam moradores, voluntários, lideranças locais e serviços de saúde para criar ambientes mais solidários e preparados para lidar com doenças crônicas, condições ameaçadoras à vida, fim de vida e luto. Atualmente, iniciativas desse tipo estão presentes em 19 países, com crescente reconhecimento internacional, inclusive durante o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos e Hospice de 2023.
Comunidades Compassivas e Demências
As demências são condições crônicas e progressivas que afetam profundamente a vida da pessoa diagnosticada, de seus familiares e da comunidade em que vivem. Aplicado às demências, o modelo das Comunidades Compassivas amplia o cuidado para além do âmbito clínico, promovendo:
Apoio no dia a dia às pessoas com demência;
Acolhimento e suporte a cuidadores e familiares;
Redução do isolamento social;
Combate ao estigma e à desinformação;
Promoção da autonomia e da dignidade ao longo da trajetória da doença.
Nesse modelo, a demência é compreendida como uma responsabilidade coletiva, favorecendo vínculos comunitários e a construção de ambientes mais acolhedores e inclusivos.
Comunidades Compassivas no Brasil
No Brasil, as primeiras experiências tiveram início em 2018, com a atuação do professor e enfermeiro Dr. Alexandre Ernesto Silva (UFSJ), por meio de ações nas comunidades do Vidigal e da Rocinha, no Rio de Janeiro. A fundação da Associação Favela Compassiva, em 2022, impulsionou a expansão do movimento para diversas regiões do país, com iniciativas em Belo Horizonte, Betim, Goiânia, São Paulo, Mossoró, Fortaleza, Brasília, Salvador, entre outras localidades.
Princípios Fundamentais e Integração com o SUS
A educação em cuidados paliativos é um dos pilares das comunidades compassivas, com foco na promoção da saúde, no fortalecimento da autonomia comunitária e na corresponsabilidade pelo cuidado. A capacitação de moradores e voluntários fortalece a resposta local às demandas reais do território, incluindo o cuidado de pessoas com demência e de seus cuidadores.
O Ministério da Saúde reconhece e incentiva esse modelo por meio da Política Nacional de Cuidados Paliativos (Portaria GM/MS nº 3.681/2024), que prevê a integração das comunidades compassivas ao SUS, especialmente à Atenção Primária e à Atenção Domiciliar, ampliando o cuidado clínico, social e emocional.
Um convite à ação
As Comunidades Compassivas aplicadas às demências oferecem um caminho concreto para humanizar o cuidado, reduzir desigualdades e promover dignidade ao longo de toda a jornada da doença.
No site da Associação Favela Compassiva, do Rio de Janeiro, é possível conhecer melhor essa experiência pioneira e visualizar formas de replicá-la em outros territórios:
favelacompassiva.org.br
Convidamos todos e todas — profissionais de saúde, lideranças locais, organizações sociais e cidadãos — a se engajarem na construção de comunidades mais compassivas, preparadas para cuidar com empatia, respeito e dignidade. Que neste início de ano, possamos refletir sobre o papel de cada um de nós na criação de ambientes mais humanos e solidários para quem convive com a demência.
Christiano Barbosa
é diretor-secretário da FEBRAZ, presidente da Associação de Parentes e Amigos de Pessoas com Alzheimer (APAZ), do Rio de Janeiro, fisioterapeuta, especialista em gerontologia pela SBGG, mestre em Epidemiologia em Saúde Pública pela ENSP/Fiocruz.
