SUS pode avançar no cuidado às pessoas com Alzheimer e outras demências

Federação Brasileira das Associações de Alzheimer

por Leandro Minozzo

Quem não conhece uma pessoa idosa que apresenta alterações cognitivas ou alguém que cuida de um familiar com demência? No Brasil, o número de pessoas que vivem com essas condições é expressivo e tende a crescer com o envelhecimento da população. Esse cenário reforça a necessidade de ampliar o acesso à prevenção, ao diagnóstico oportuno, ao tratamento adequado e ao cuidado integral, incluindo o apoio às famílias e aos parceiros de cuidado.

 

Um levantamento do ReNaDe, publicado em 2023, estimou que cerca de 2,7 milhões de pessoas no Brasil vivem com algum tipo de demência. Outras pesquisas apontam que aproximadamente 4 milhões de pessoas idosas apresentam comprometimento cognitivo leve (CCL), condição que pode estar associada a um risco aumentado de desenvolver demência, embora nem todas essas pessoas evoluam para esse quadro. Esses números evidenciam a dimensão do desafio para a saúde pública brasileira.

 

Em 2024, foi sancionada a Lei nº 14.878/2024, que instituiu a Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências. De autoria do senador Paulo Paim e relatada pelo senador Romário, a lei representa um marco importante para a construção de políticas públicas voltadas às pessoas que vivem com demência e suas famílias. No entanto, transformar esse avanço legal em melhorias concretas no cotidiano da população exige organização dos serviços, articulação entre diferentes setores e implementação efetiva das medidas previstas.

 

O que o SUS oferece atualmente?

 

O Sistema Único de Saúde (SUS) já disponibiliza recursos importantes para o cuidado de pessoas com Alzheimer e outras demências. Entre eles estão:

 

  • Medicamentos: acesso a tratamentos como donepezila, galantamina, rivastigmina e memantina, conforme os critérios e protocolos estabelecidos pelo SUS.

 

  • Fraldas geriátricas: possibilidade de acesso por meio dos programas e mecanismos de dispensação disponíveis, de acordo com os critérios aplicáveis.

 

  • Atenção domiciliar: atendimento em casa para pessoas que atendem aos critérios dos serviços disponíveis, especialmente aquelas com limitações importantes de mobilidade ou necessidades complexas de cuidado.

 

  • Atendimento especializado: acompanhamento em serviços de atenção especializada e hospitais universitários, conforme a organização da rede de saúde de cada região.

 

Apesar desses recursos, persistem desafios relacionados ao reconhecimento dos primeiros sinais, à confirmação diagnóstica, à continuidade do acompanhamento, à orientação após o diagnóstico e ao suporte oferecido às famílias. A disponibilidade e o acesso aos serviços também variam entre municípios e regiões do país.

 

O próximo passo: atualizar a Linha de Cuidado em Demências

 

Após a sanção da Lei nº 14.878/2024, a sociedade civil e diferentes lideranças passaram a fortalecer sua articulação por meio da Coalizão Nacional pelas Demências (CoNaDe). Em dezembro de 2025, tiveram início conversas com o Ministério da Saúde para apresentar propostas e contribuir com a implementação da política nacional.

 

Mais recentemente, por iniciativa do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, começaram articulações para a atualização da Linha de Cuidado em Demências. A iniciativa representa uma oportunidade importante para aprimorar a organização da assistência no SUS.

 

A Linha de Cuidado estabelece como os serviços de saúde devem se organizar e se conectar ao longo da jornada da pessoa, desde a identificação de alterações cognitivas e a investigação diagnóstica até o tratamento, o acompanhamento e o suporte às famílias. O objetivo é orientar os profissionais, favorecer a continuidade da assistência e contribuir para que as pessoas recebam cuidados adequados às suas necessidades.

 

A CoNaDe participa desse processo de articulação, reunindo conhecimentos técnicos, experiências de cuidado e propostas da sociedade civil. Elaine Mateus, representante da Febraz e integrante da coordenação executiva da Coalizão, também participa das conversas, contribuindo com sua experiência em advocacy — trabalho de articulação e incidência junto aos tomadores de decisão para promover políticas públicas e defender direitos.

 

Experiências que podem contribuir para o avanço nacional

 

O Brasil já conta com iniciativas que podem colaborar para essa construção. Entre elas estão a experiência do estado do Ceará e a Linha Municipal de Cuidado em Demências e de Promoção da Saúde Cognitiva, integrada ao programa 60 Minutos para o Cérebro, de Dois Irmãos (RS), município pioneiro na implementação de uma linha municipal com esse foco.

 

Conhecer essas experiências e considerar suas contribuições nas discussões nacionais pode ajudar a construir orientações mais conectadas às necessidades reais das pessoas que vivem com demência, de seus familiares e dos profissionais de saúde.

 

A atualização da Linha de Cuidado é um passo relevante, mas sua efetividade dependerá da implementação das orientações, da capacitação dos profissionais, da integração entre os serviços e do acompanhamento contínuo dos resultados.

 

A articulação coletiva é fundamental

 

Os avanços nas políticas públicas para Alzheimer e outras demências dependem da união de esforços entre poder público, profissionais de saúde, pesquisadores, organizações da sociedade civil, pessoas que vivem com demência e familiares.

 

A implementação da Política Nacional e o aprimoramento da Linha de Cuidado são oportunidades para transformar direitos previstos em lei em acesso real a diagnóstico, tratamento, acompanhamento e apoio. O trabalho de articulação precisa continuar para que esses avanços alcancem todas as regiões do Brasil e contribuam para um cuidado integral, digno e acessível.

 

Conheça a CoNaDe: conade.org.br

Dr. Leandro Minozzo

Médico geriatra idealizador da Lei Nacional de Alzheimer, membro da Conade (Coalizão Nacional em Demências). Idealizador do Plano Estadual de Cuidado Integral de Demências (PECID) do RS. Advocacy em demências. Associado da SBGG, Prof. de Geriatria da Univ. FEEVALE. Mestre em Educação. Pós-MBA em Liderança. Doutorando em Gerontologia Biomédica. Autor de livros sobre longevidade e Alzheimer.