Por Ticyana Novais
Uma das experiências mais difíceis para as famílias que convivem com o Alzheimer é perceber que a pessoa pode esquecer conversas, acontecimentos recentes, nomes e até situações importantes da própria história.
Diante disso, é comum surgir uma pergunta dolorosa: se ela não vai lembrar, será que ainda importa o que fazemos ou dizemos?
Importa. E muito.
Mesmo quando a memória dos fatos está comprometida, a experiência emocional pode permanecer. A pessoa pode não conseguir explicar por que está tranquila, angustiada, segura ou irritada, mas o sentimento provocado por uma interação pode continuar presente.
É por isso que a forma como nos comunicamos faz diferença.
Corrigir repetidamente, confrontar esquecimentos ou dizer frases como “eu já te falei isso” pode aumentar a sensação de insegurança e fracasso. Em muitos momentos, mais importante do que provar o que realmente aconteceu é compreender o que aquela pessoa está sentindo.
Se ela pergunta pela mãe que já faleceu há muitos anos, por exemplo, nem sempre será necessário fazê-la reviver aquela perda novamente. Podemos primeiro tentar compreender o que existe por trás daquela pergunta: saudade, medo, necessidade de proteção ou simplesmente o desejo de estar perto de alguém conhecido.
Isso não significa mentir ou infantilizar. Significa escolher cuidadosamente quando a realidade precisa ser corrigida e quando acolher a emoção é mais importante.
Um tom de voz tranquilo, um toque afetuoso, uma música conhecida, uma conversa agradável ou alguns minutos de presença podem produzir efeitos que permanecem mesmo quando o episódio em si já foi esquecido.
No cuidado às pessoas que vivem com demência, talvez uma das mudanças mais importantes seja esta: deixar de avaliar cada encontro apenas pelo que a pessoa conseguiu lembrar.
Porque ela pode esquecer o que você disse, pode esquecer o que aconteceu e até esquecer que você esteve ali.
Mas a sensação de ter sido tratada com carinho, respeito e segurança pode permanecer por muito mais tempo.
Ticyana Novais
Conselheira da Febraz, integrante da Comissão Científica. Vice-presidente do Instituto Alzheimer Brasil (Curitiba- PR), Neuropsicóloga, Especialista em Gerontologia pela FIES-PR, Mestre em Biologia Celular e Molecular / Fisiologia pela UFPR.
