Jardins terapêuticos, demência e design biofílico: qual o potencial restaurativo dos ambientes naturais?

Federação Brasileira das Associações de Alzheimer
A relação entre natureza, saúde e bem-estar vem recebendo atenção crescente nos estudos sobre o ambiente construído. Entre as possibilidades de aplicação estão os jardins terapêuticos, que associam paisagismo, experiências com a natureza e necessidades específicas dos usuários. 
Para pessoas com demência, esses espaços podem oferecer condições favoráveis à permanência, à circulação, à realização de atividades e à convivência, além de integrar recursos ambientais às práticas de cuidado.
Cooper-Marcus e Barnes difundiram o conceito de Healing Gardens para designar jardins planejados com atenção aos aspectos físicos e psicossociais das pessoas que os utilizam. Entre as características apontadas pelos autores estão a acessibilidade, a escolha de espécies vegetais, a presença de diferentes estímulos sensoriais e a criação de áreas para contemplação, jardinagem, atividade física, convivência e descanso1,2. 
Hartig e Cooper-Marcus posteriormente questionaram o emprego da palavra healing, por sugerir uma capacidade de cura atribuída ao ambiente3. Os autores defendem expressões como “jardim terapêutico” e “jardim restaurativo”, que deixam mais claro o caráter complementar desses espaços em relação aos tratamentos e às práticas de saúde.
A discussão sobre jardins terapêuticos também se relaciona aos conceitos de biofilia e design biofílico. A biofilia corresponde à tendência humana de estabelecer conexão e vínculo com a natureza e os sistemas vivos, enquanto o design biofílico consiste na incorporação intencional de elementos e experiências naturais ao ambiente construído, buscando favorecer o conforto, o bem-estar e a relação pessoa–ambiente4,5. 
Entre os recursos utilizados estão vegetação, água, luz natural, materiais e texturas naturais, vistas para áreas verdes, formas orgânicas e diferentes estímulos sensoriais. Para pessoas com demência, entretanto, esses elementos devem ser selecionados e organizados com cuidado, pois características que proporcionam conforto a alguns usuários podem provocar desconforto, desorientação ou sobrecarga sensorial em outros, especialmente diante de alterações perceptivas e cognitivas associadas à condição. 
Sillmann, Marques e Fabrino (2024) descrevem os espaços exteriores terapêuticos como ambientes naturais ou seminaturais que favorecem a aproximação das pessoas com o meio ambiente e podem contribuir para a saúde física e mental6. Hartig e Cooper-Marcus (2006) também reconhecem a possibilidade de adaptar esses espaços às necessidades de diferentes grupos, incluindo pessoas idosas com demência3. Dessa maneira, o jardim pode fazer parte da rotina de cuidado, oferecendo locais para caminhar, sentar, conversar, observar a natureza ou participar de atividades.
O contato com ambientes naturais pode ocorrer de diferentes formas, desde a observação de árvores e jardins através de uma janela até a permanência em áreas externas e a participação em atividades de cultivo e cuidado com plantas. Essas experiências podem favorecer o bem-estar, contribuir para a redução do estresse e promover respostas fisiológicas associadas ao relaxamento, como diminuição da frequência cardíaca, da pressão arterial e dos níveis de cortisol, hormônio associado ao estresse7,8,9.
Fonte: Imagem gerada por IA (2026).
Esses achados são especialmente relevantes no cuidado de pessoas com demência, considerando a ocorrência de sintomas psicológicos e comportamentais como ansiedade, agitação, irritabilidade, apatia e alterações do humor9. Ambientes mais tranquilos, previsíveis e adequados às necessidades sensoriais podem ajudar a reduzir situações que favorecem desconforto e desorganização comportamental. O jardim, nesse sentido, pode integrar um conjunto de estratégias não farmacológicas utilizadas para qualificar o cuidado10,11. Sua contribuição está relacionada às características do ambiente e às oportunidades de atividade que ele oferece, e não à substituição de tratamentos clínicos.
A conjuntura desses elementos naturais precisa considerar a quantidade e a intensidade dos estímulos presentes. Ruídos constantes, iluminação inadequada, excesso de contrastes, superfícies reflexivas e percursos pouco compreensíveis podem dificultar a leitura do espaço. Por outro lado, ambientes sem referências também podem limitar a exploração e o interesse. O equilíbrio entre estímulo e previsibilidade é especialmente importante para pessoas com demência11.
A vegetação pode contribuir para a orientação e para a familiaridade com o lugar. Cores, texturas, formas e aromas podem funcionar como referências sensoriais e espaciais. Espécies conhecidas pela pessoa podem ainda despertar lembranças relacionadas à infância, à casa, ao trabalho ou a outras experiências significativas. Essa relação entre vegetação e memória pode favorecer atividades de reminiscência e reforçar elementos da identidade pessoal11.
Os caminhos devem ser simples, contínuos e facilmente reconhecíveis. Mudanças de direção, entradas e áreas de permanência podem ser marcadas por vegetação, mobiliário, diferenças de textura ou outros elementos que auxiliem na identificação dos lugares. Cores e contrastes podem contribuir para a distinção entre pisos e obstáculos, enquanto superfícies brilhantes ou excessivamente reflexivas devem ser evitadas quando houver possibilidade de confusão visual11.
Fonte: Imagem gerada por IA (2026).
A segurança também precisa estar presente sem fomentar a sensação de confinamento. Cercas vivas, treliças, vegetação de diferentes alturas e outras soluções paisagísticas podem ajudar a delimitar áreas e orientar percursos. A iluminação deve permitir deslocamentos seguros, principalmente em áreas de transição, e os pisos precisam oferecer estabilidade e condições adequadas para pessoas com diferentes níveis de mobilidade11.
As atividades são outro componente importante. Caminhar, cuidar de plantas, regar, colher, observar pássaros ou simplesmente permanecer em um local agradável são ações que podem ser incorporadas à rotina. A horticultura terapêutica merece atenção nesse sentido. O estudo de Han, Park e Ahn (2018) identificou ganhos relacionados à força muscular, flexibilidade, agilidade, equilíbrio e resistência aeróbica em pessoas idosas participantes desse tipo de atividade12. Para pessoas com demência, tarefas familiares também podem favorecer o envolvimento e permitir o uso de habilidades que permanecem preservadas.
O jardim deve oferecer diferentes possibilidades de permanência. Bancos posicionados próximos à vegetação podem favorecer a contemplação, enquanto áreas maiores podem receber familiares ou grupos. Locais mais reservados permitem momentos de menor estímulo. Essa variedade atende tanto às necessidades da pessoa com demência quanto às de familiares, cuidadores e profissionais, que também necessitam de espaços adequados para permanecer, conversar ou descansar11.
A experiência sensorial precisa ser planejada com cuidado. Aromas intensos, sons contínuos, excesso de cores, movimentos ou elementos visuais podem gerar desconforto em algumas pessoas. Por isso, o design biofílico aplicado à demência deve considerar a intensidade dos estímulos, suas relações entre si e as características individuais dos usuários. A natureza não precisa estar presente em excesso para produzir uma experiência significativa11.
Para esse público, algumas diretrizes assumem maior importância: acessibilidade, segurança, legibilidade espacial, estímulos sensoriais equilibrados, vegetação familiar, caminhos compreensíveis, oportunidades de atividade, contato cotidiano com a natureza e espaços para convivência e privacidade. A combinação desses aspectos permite que o jardim seja utilizado de diferentes formas, conforme as capacidades, interesses e necessidades de cada indivíduo11.
A utilização de jardins e áreas naturais como parte do cuidado não substitui medicamentos, acompanhamento médico ou outras intervenções necessárias. Sua contribuição está na possibilidade de modificar o ambiente em que a pessoa vive e recebe cuidados. Quando bem planejado, o espaço pode diminuir determinados estressores, oferecer atividades significativas, favorecer o movimento e criar oportunidades de contato com familiares e outras pessoas11.
Em residências, instituições de longa permanência para pessoas idosas, centros-dia, serviços de saúde e equipamentos comunitários, a presença qualificada da natureza pode ampliar as possibilidades de cuidado. Para pessoas com demência, isso significa pensar em jardins que sejam acessíveis, compreensíveis e seguros, mas que também preservem a possibilidade de escolha, descoberta e vínculo com o ambiente. A biofilia, nesse caso, ganha valor quando contribui para uma experiência cotidiana mais confortável e significativa, integrada às necessidades da pessoa e à realidade de quem participa de seu cuidado.

Referências

  1. COOPER-MARCUS, C.; BARNES, M. Gardens in the Healthcare Facilities: Uses, therapeutic benefits, and design recommendations. Martinez: The Center for Health, 1995.
  2. COOPER-MARCUS, C.; BARNES, M. Healing Gardens: therapeutic benefits and design
recommendations. New York: Wiley, 1999.
  1. HARTIG, T.; COOPER-MARCUS, C. Essay: healing gardens: places for nature in health care. The Lancet, v.368, n.1, p.36-37, 2006.
  2. WILSON, E. O. Biophilia. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1984. 
  3. KELLERT, S. R.; HEERWAGEN, J. H.; MADOR, M. L. (ed.). Biophilic design: the theory, science and practice of bringing buildings to life. Hoboken: John Wiley & Sons, 2008. 
  4. SILLMANN, T. A.; MARQUES, P. O.; FABRINO, C. Therapeutic gardens: historical context, foundations, and landscaping. Ornamental Horticulture, v. 30, 1 jan. 2024.
  5. BORELLA, E. et al. Effects of an outdoor horticultural activities program on cognitive and behavioral functioning, mood, and perceived quality of life in people with dementia: a pilot study. Frontiers in Psychology, v. 14, 1182136, 2023. 
  6. GIGLIOTTI, C. et al. Effectiveness of therapeutic gardens for people with dementia: a systematic review. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 18, n. 18, 9595, 2021.
  7. PEDRINOLLA, A. et al. An indoor therapeutic garden for behavioral symptoms in Alzheimer’s disease: a randomized controlled trial. Journal of Alzheimer’s Disease, v. 71, n. 3, p. 813–823, 2019. 
  8. VAN DER VELDE-VAN BUURINGEN, Melanie et al. Effects of a garden use intervention on daily life and quality of life among nursing home residents living with dementia. Environment and Behavior, v. 58, n. 7, p. 1029–1059, 2026. 
  9. ALBUQUERQUE, C. F. H.; SANTIAGO, Z. M. P.  Envelhecimento Sustentável Integrado aos Jardins Terapêuticos: estratégias de cuidado para pessoas idosas com demência. Editora Científica Digital eBooks, v.1, n.1, p. 160–181, 2025. 
  10. HAN, A.R.; PARK, S.A.; AHN, B.E. Reduced stress and improved physical functional ability in elderly with mental health problems following a horticultural therapy program. Complementary Therapies in Medicine, v.38, p.19-23, 2018.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Arquiteto e Urbanista. Mestre pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBBG). Pós-Graduado em Neurociência | Geriatria e Gerontologia | Neuroarquitetura. Membro do Conselho Municipal do Direito da Pessoa Idosa (CMDPI) e Coordenador da Comissão de Fiscalização, Normatização e Inscrição, Fortaleza, Ceará. Membro do Centro Educacional da Academy Of Neuroscience for Architecture (ANFA). Docente na Pós-Graduação de Gerontologia da Universidade de Fortaleza (UNIFOR).